NR-1 e a saúde mental corporativa: o papel do médico do trabalho
Por Fatima Macedo
Desde que a gestão dos riscos psicossociais passou a ser uma exigência da NR-1, a saúde mental tornou-se uma prioridade dentro da gestão de Segurança e Saúde no Trabalho. A nova norma exige que os riscos psicossociais sejam identificados, avaliados e administrados, assim como qualquer outro risco ocupacional. Aumentam as responsabilidades, mas também os benefícios para a saúde organizacional.
No contexto clínico, a identificação de sinais de estresse crônico, ansiedade e síndrome de Burnout permite avaliar como metas, jornadas de trabalho e responsabilidades se relacionam com processos de adoecimento. Essa análise oferece subsídios para a avaliação dos riscos psicossociais no PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos), favorecendo uma atuação integrada com Recursos Humanos e lideranças, além de orientar a implementação de medidas preventivas e estratégias de saúde ocupacional.
Para o Médico do Trabalho, isso representa uma oportunidade de atuação mais preventiva, com foco na redução de afastamentos recorrentes, na qualificação de laudos e condutas, além do fortalecimento da gestão e da estratégia organizacional. Ao integrar a análise clínica dos riscos psicossociais às decisões corporativas, o médico contribui diretamente para a saúde ocupacional e para o desempenho sustentável da organização.
A promoção da saúde mental no trabalho deve ser compreendida como parte indissociável da cultura organizacional, independentemente do porte da empresa. Quando a alta gestão reconhece o cuidado com a saúde integral, física e mental, como um valor estratégico, cria-se um ambiente favorável à prevenção de agravos, à sustentabilidade do trabalho e à melhoria dos desfechos em saúde ocupacional.
A Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) ainda é, por vezes, percebida como excessivamente burocrática. No entanto, seu propósito central é apoiar as organizações na estruturação de processos eficazes de gestão de saúde e segurança no trabalho, com foco na prevenção de riscos e no controle de fatores que impactam o adoecimento físico e mental dos trabalhadores. Todas as empresas, independentemente do enquadramento legal ou grau de risco, têm responsabilidade sobre os aspectos que envolvem a gestão dos riscos psicossociais.
Nos últimos anos, a saúde mental consolidou-se como um eixo central da governança de riscos corporativos. As atualizações da NR-1 refletem esse avanço ao incorporar explicitamente os fatores de risco psicossociais ao gerenciamento dos riscos ocupacionais.
A inclusão dos riscos psicossociais no PGR exige que as empresas realizem identificação, avaliação, implementação e monitoramento de medidas preventivas, com o mesmo rigor técnico aplicado aos demais agentes de risco. Para o médico do trabalho, isso representa uma ampliação relevante de sua atuação, fortalecendo o papel clínico, epidemiológico e estratégico na prevenção de transtornos mentais relacionados ao trabalho.
Embora a efetiva exigibilidade dessa atualização esteja prevista para maio de 2026, trata-se de uma oportunidade para antecipação de boas práticas. A atuação integrada entre Medicina do Trabalho, SESMT, RH e lideranças é fundamental para a construção de ambientes mais saudáveis, produtivos e resilientes, indo além do mero cumprimento legal.
A NR-1 atualizada demanda evidências documentais auditáveis sobre a gestão dos riscos psicossociais, o que implica capacitação técnica de lideranças, revisão de políticas internas, comunicação estruturada e canais de escuta ativa dos trabalhadores. Esses elementos contribuem para a redução de passivos trabalhistas e previdenciários, especialmente diante do crescimento expressivo dos afastamentos por transtornos mentais no Brasil, que totalizam cerca de 500 mil registros em 2024, representando um aumento de 66% em relação ao ano anterior, segundo dados do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho.
Encarar a saúde mental como um ativo estratégico fortalece a gestão de riscos, reduz o absenteísmo e o presenteísmo, melhora o clima organizacional e contribui para a sustentabilidade das empresas. A NR-1, nesse contexto, consolida-se como um instrumento integrador entre conformidade legal, prevenção de adoecimentos e desenvolvimento humano no trabalho.
*Fatima Macedo é Psicóloga especialista em saúde mental do trabalhador, CEO da Mental Clean, membro fundadora do SAMPO (Ambulatório de Saúde Mental do Trabalhador) no Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP (2009) e Diretora de Certificação na ABQV.

