1 em cada 10 pacientes jovens desenvolve metástase após tratamento inicial de câncer
Um novo estudo publicado na prestigiada revista científica JAMA Oncology revela que aproximadamente um em cada dez pacientes jovens diagnosticados com tumores localizados desenvolve metástase – isto é, a disseminação da doença para outros órgãos – anos após o tratamento inicial.
A pesquisa, conduzida pelo Centro de Câncer da Universidade da Califórnia (UC Davis), acompanhou mais de 48 mil pacientes com idade entre 15 e 39 anos e demonstrou que o câncer, quando recorre e se espalha para outros órgãos, apresenta prognóstico significativamente mais desfavorável do que aqueles diagnosticados já em estágio avançado no momento inicial.
Os dados indicam que determinados tipos de câncer apresentam maior risco de retornar de forma agressiva em jovens. O sarcoma, que acomete tecidos conjuntivos como ossos, músculos e vasos sanguíneos, lidera a lista, com taxa de recorrência metastática de 24,5% em cinco anos, seguido pelo câncer colorretal (21,8%), câncer do colo do útero (16,3%) e câncer de mama (14,7%).

A disparada de casos de câncer colorretal em jovens
Segundo Thereza Loureiro, oncogeneticista da Dasa Genômica e consultora dos laboratórios Sérgio Franco e Bronstein, no Rio de Janeiro, a elevada taxa de recorrência metastática no câncer colorretal aponta para um cenário preocupante, especialmente diante do aumento global da incidência desse tumor em populações mais jovens.
“No Brasil, observamos um deslocamento geracional do câncer colorretal, que já figura como o terceiro tipo de câncer mais comum entre 18 e 50 anos, segundo o Painel Oncologia Brasil, do Ministério da Saúde. Nos Estados Unidos, a American Cancer Society aponta essa neoplasia como a principal causa de morte por câncer em homens jovens. Fatores como consumo excessivo de alimentos ultraprocessados, sedentarismo e alterações precoces da microbiota intestinal parecem estar entre os principais determinantes desse aumento. Além disso, o componente genético hereditário responde por cerca de 10% dos casos”, explica a especialista.
Entre 2026 e 2040, projeções da Fundação do Câncer, publicadas no Info.Oncollect, estimam que a mortalidade por câncer colorretal possa crescer cerca de 36% no Brasil, com um número acumulado de óbitos que pode se aproximar de 200 mil nesse período.
Necessidade de cuidados personalizados
Para Pedro Morgan, radiologista oncológico da clínica CDPI, da Dasa, os achados do estudo norte-americano reforçam que a metástase tardia é relativamente frequente e mais agressiva em pacientes entre 15 e 39 anos, exigindo acompanhamento prolongado, rigoroso e individualizado, mesmo após o término do tratamento inicial.
“O seguimento radiológico deve ser personalizado. Um sobrevivente de câncer aos 25 anos não pode ter a mesma periodicidade de exames que um paciente de 70. Hoje, dispomos de tecnologias – como a ressonância magnética de corpo inteiro e o PET-CT com traçadores específicos – que permitem detectar metástases antes mesmo do aparecimento de sintomas. No câncer colorretal, por exemplo, a vigilância por imagem do fígado e dos linfonodos abdominais precisa ser particularmente cuidadosa, pois é nos estágios iniciais da metástase que ainda existe possibilidade de intervenção com intenção curativa”, destaca Morgan.
Genética ajuda a “prever” metástases
O sequenciamento genético tem se consolidado como um pilar essencial na estratificação de risco oncológico e como ferramenta decisiva para o sucesso terapêutico. Segundo Thereza Loureiro, a análise molecular permite estimar o risco biológico de recorrência e metástase, contribuindo para maior sobrevida e qualidade de vida de pacientes jovens.
Ao identificar mutações específicas e assinaturas moleculares no tumor primário, os painéis genéticos possibilitam antecipar quais pacientes apresentam maior probabilidade de recidiva da doença.
“Ao decodificarmos o DNA tumoral, deixamos de tratar apenas a doença clinicamente visível e passamos a atuar sobre sua vulnerabilidade molecular. Com exames como a biópsia líquida, por exemplo, conseguimos analisar o DNA tumoral circulante no sangue, monitorar a resposta ao tratamento e detectar sinais precoces de metástase, protegendo o futuro desse jovem paciente”, finaliza Loureiro.

