Realidade aumentada e IA ampliam precisão da neurocirurgia
Por Feres Chaddad
A neurocirurgia em paciente acordado vem avançando de forma consistente, impulsionada pela necessidade de remover tumores cerebrais de maneira cada vez mais ampla sem comprometer funções neurológicas essenciais, como linguagem, movimento e cognição. Nesse cenário, recursos de realidade aumentada (AR), realidade mista e inteligência artificial (IA) estão ganhando relevância ao apoiar tanto o planejamento pré-operatório quanto a execução da cirurgia, contribuindo para maior precisão e melhor orientação durante o procedimento.
Visualização ampliada do cérebro
O paciente permanece desperto durante a cirurgia para etapas consideradas estratégicas para que funções neurológicas sejam avaliadas em tempo real. Esse modelo exige um nível elevado de controle anatômico e funcional. A realidade aumentada surge como um recurso que permite integrar informações digitais ao campo cirúrgico, oferecendo ao cirurgião uma visão mais clara das estruturas envolvidas.
Com o uso da AR, torna-se possível observar a relação entre o tumor, áreas corticais responsáveis por funções críticas e os tratos de substância branca – feixes que conectam diferentes regiões do cérebro – mesmo quando essas estruturas não sejam visíveis diretamente. Essa sobreposição de dados favorece o mapeamento funcional e facilita a navegação intraoperatória.
Uma revisão publicada na Neurosurgical Review analisou aplicações de realidade aumentada e realidade virtual em cirurgias com pacientes acordados, apontando ganhos relevantes na orientação espacial e na compreensão anatômica durante a ressecção tumoral. Estudos técnicos também descrevem a integração da AR com a tractografia, técnica de imagem que reconstrói o trajeto das fibras nervosas, ampliando a segurança durante a remoção da lesão.
Trabalhos mais recentes descrevem a sobreposição simultânea do tumor e dos tratos de substância branca durante a cirurgia acordada com resultados positivos na preservação funcional.
Inteligência artificial como suporte analítico
Enquanto a realidade aumentada contribui para a visualização anatômica, a inteligência artificial vem sendo explorada como ferramenta de apoio analítico em diferentes etapas do cuidado neurocirúrgico. Artigos apontam avanços no uso de algoritmos para segmentação automática de tumores em exames de imagem, análise mais precisa da tractografia e construção de modelos tridimensionais navegáveis que integram dados clínicos e radiológicos.
Esses sistemas também têm sido estudados como apoio à tomada de decisão, auxiliando na estimativa de riscos, na previsão de desfechos e na redução da variabilidade entre profissionais. Uma análise dedicada ao estado atual da IA aplicada à neurocirurgia destaca esse potencial, ao mesmo tempo em que aponta desafios relacionados à validação clínica, à regulação e à integração dessas soluções em tempo real no ambiente cirúrgico.
Limites atuais e próximos passos
Apesar dos avanços observados, a adoção mais ampla de recursos de realidade aumentada, realidade virtual e inteligência artificial na neurocirurgia em paciente acordado ainda enfrenta entraves importantes, como exigências regulatórias, necessidade de validação em estudos multicêntricos e integração eficiente com sistemas de monitorização neurofisiológica. Ao mesmo tempo, essas tecnologias vêm se afirmando como ferramentas complementares à cirurgia cerebral, ao combinar melhor visualização e orientação intraoperatória com maior capacidade analítica e apoio à decisão, o que reforça a importância de pesquisas prospectivas capazes de comprovar, de forma consistente, que a inovação tecnológica se traduz em mais segurança e melhores desfechos funcionais e oncológicos para os pacientes.
*Feres Chaddad é professor e chefe da Disciplina de Neurocirurgia da UNIFESP e chefe da Neurocirurgia da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo.

