Enamed: por que a formação médica precisa ser revista?

Por Durval Ribas Filho

O anúncio, do último dia 19, com a divulgação dos resultados do Enamed 2025 (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica), que mede o desempenho dos estudantes e a qualidade dos cursos de Medicina no país, reacendeu o debate sobre a formação médica, que precisa ser ampliado e envolver instituições de ensino, órgãos reguladores, profissionais de saúde, estudantes e sociedade.

Os dados são preocupantes, pois dos 351 cursos de Medicina avaliados, 99 deles obtiveram conceitos 1 ou 2, faixas consideradas insatisfatórias. Dos quase 40 mil estudantes concluintes, apenas 67% demonstraram proficiência adequada, enquanto cerca de 13 mil não atingiram o nível esperado para o exercício seguro da Medicina. Isso equivale dizer que estes profissionais, não proficientes, poderão, legalmente, prestar atendimento à população, com risco de expor estas pessoas ao seu despreparo no exercício da Medicina.

Este cenário cria um certo paradoxo, diante da realidade que caminha paralela às atuais descobertas científicas e os avanços tecnológicos, na área da saúde, que têm transformado a prática médica e nutricional, com um olhar para os cuidados preventivos, mais individualizados, seguros e baseados em evidências, diante da perspectiva de estarmos cada vez mais próximos de uma população longeva e que almeja qualidade de vida, com maior autonomia no seu cotidiano, no trabalho e no lazer.

E daí surgem mais questionamentos. Qual será a trajetória para se chegar aos 100 anos ou ultrapassá-los? Quem serão os profissionais que irão zelar pela saúde dessa população que quer envelhecer, sim, mas ser ativa? Estarão aptos? E, pelo que vimos nos resultados da Enamed, as instituições de ensino terão muito trabalho pela frente na formação dos futuros médicos, que serão os orientadores do bem-estar nessa jornada rumo à longevidade.

É nessa trilha que surge a janela de oportunidade para ampliar os conhecimentos da próxima geração de médicos no país, dentro de uma nova dinâmica no ensino e aprendizado da Medicina. É fundamental essa evolução na busca pelo aprimoramento dos saberes técnico-científicos, em sintonia com o desafio de desenvolver habilidades socioemocionais, com novas frentes e exploração de áreas médicas e especializações, seja nos consultórios, nas clínicas ou nos hospitais.

É preciso atenção para expandir e agregar, na graduação, disciplinas focadas em áreas como a Nutrologia, que têm ganhado reconhecimento pelos seus resultados. Embora ainda confundida com a Nutrição, a Nutrologia é uma especialidade médica desde 1978, reconhecida no Brasil pelo CFM (Conselho Federal de Medicina), pela AMB (Associação Médica Brasileira) e pela CNRM (Comissão Nacional de Residência Médica).

Seu escopo envolve o diagnóstico, a prevenção e o tratamento de doenças relacionadas à alimentação e ao estado nutricional, o que inclui a obesidade — doença crônica que afeta milhões de pessoas no mundo —, deficiências nutricionais, distúrbios metabólicos e a terapia nutricional, quadros clínicos muitas vezes associados ao próprio envelhecimento do organismo.

Hoje, só são reconhecidos como nutrólogos médicos pós-graduados na especialização, e o número de registros segue uma curva ascendente, o que evidencia a demanda e a consolidação da profissão.

Um dos pontos relevantes é a integração da Nutrologia com outras áreas, como Endocrinologia, Gastroenterologia e Cardiologia, inserindo-a em uma abordagem multidisciplinar, hoje indispensável em especial em casos de alta complexidade, como os oncológicos, com uma visão global do paciente, o que contribui de forma expressiva para a definição da melhor conduta e resultados.

Os aspectos nutricionais, muitas vezes, são encarados como um tema transversal, e não central, em uma educação médica que ainda prioriza a doença e a intervenção farmacológica. Essa visão pode estar enraizada na própria história da formação médica, moldada para priorizar patologias tradicionais e procedimentos.

A prevenção é muito jovem nesse contexto, mas não se pode deixar de considerar as fortes evidências científicas de que a Nutrologia exerce influência relevante no desenvolvimento e no tratamento de muitas doenças, inclusive mentais, visto as atuais pesquisas sobre a relação cérebro-intestino.

No cenário internacional, a Nutrição Médica vem ganhando reconhecimento como parte fundamental da medicina preventiva e terapêutica. Em países como Estados Unidos e Reino Unido, há certificação de médicos especialistas na área e reformulação dos programas de educação médica. As iniciativas visam a ampliação do treinamento na área e valorização da nutrição, da prevenção e dos cuidados com o estilo de vida desde a formação inicial.

Pensar em “saúde nutrológica” envolve um melhor desempenho qualitativo no dia a dia. Nosso papel, como médicos nutrólogos, é avaliar criticamente modismos, orientar o paciente com base na ciência e explicar que resultado saudável não é sinônimo de resultado rápido.

E, ao mesmo tempo que a medicina avança em direção à precisão, nas redes sociais se segue uma rota oposta: simplificar temas complexos de saúde e promover soluções genéricas, muitas vezes sem qualquer base científica. Não faltam profissionais, não especialistas, que se intitulam nutrólogos e fazem promessas milagrosas, que não existem, o que reforça a importância da qualificação, para que se propaguem informações com respaldo científico e se evitem riscos reais à vida.

Ciência, tecnologia e ensino caminham juntos – mas exigem responsabilidade -, pois a evolução das pesquisas e das evidências médicas reafirma que não há um padrão único de corpo saudável, tampouco soluções mágicas para alcançá-lo e o aprendizado sério é a segurança de que o conhecimento médico de qualidade está sendo respeitado e será aplicado.


*Durval Ribas Filho é Médico Nutrólogo, Professor Titular de Nutrologia da Faculdade de Medicina da Fundação Padre Albino/UNIFIPA/FAMECA – Fellow da The Obesity Society – TOS (USA) e Presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN).

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