Saúde entrou na fase da “prova de valor” e isso é bom para o setor
Por Michel Goya
Em 2026, o ecossistema de startups no Brasil passa por uma virada silenciosa — e necessária. Com a Selic em 15% ao ano, o custo do capital subiu e a régua para investir também. O dinheiro não desapareceu, mas ficou mais seletivo, mais exigente e claramente orientado à eficiência.
Esse cenário se soma a um ano eleitoral, com o primeiro turno marcado para 4 de outubro. Historicamente, períodos como esse trazem mais cautela ao mercado. Investidores desaceleram decisões, conselhos pedem previsibilidade e o capital passa a esperar provas mais concretas antes de se mover.
O novo normal do investimento deixou claro que boas histórias já não bastam. A pergunta central hoje é simples: qual é a evidência real de valor do negócio?
As projeções do mercado refletem esse contexto. O Boletim Focus aponta expectativa de Selic em 12,25% ao fim de 2026, PIB estimado em 1,8% e inflação em torno de 4,05%. Há sinais de melhora, mas o ambiente ainda está longe de ser favorável ao risco.
Na prática, Venture Capital e Private Equity passaram a exigir fundamentos sólidos. Unit economics reais, governança, compliance, previsibilidade operacional e uma tese clara de escala com eficiência deixaram de ser diferenciais e se tornaram requisitos básicos.
Na saúde, esse movimento é ainda mais evidente. Trata-se de um setor historicamente marcado por ineficiências: filas, glosas, desperdício, retrabalho, falta de integração entre sistemas e custos elevados de backoffice. Quem consegue atacar esses gargalos com consistência passa a ser prioridade.
A discussão atual não é sobre “IA por IA”, mas sobre produtividade mensurável. Tecnologia precisa reduzir custo assistencial, automatizar processos, qualificar decisões com dados e minimizar riscos. É isso que gera valor real.
Com a captação mais difícil, outro movimento ganha força: a consolidação. Fusões e aquisições voltam ao centro da estratégia, seja para ganhar escala, incorporar software crítico ou ampliar distribuição. As operações recentes no setor mostram claramente que o mercado está comprando eficiência e capilaridade.
Nesse contexto, o caixa e a governança fazem diferença. Empresas bem capitalizadas conseguem investir, atrair talentos e executar movimentos estratégicos enquanto o mercado ainda opera com cautela. Em ciclos como esse, vantagem competitiva não vem do discurso, mas da capacidade de execução.
Na ABSS, nosso papel é ajudar o ecossistema a amadurecer. Trabalhamos para aproximar startups de quem decide — investidores, hospitais, operadoras e grandes empresas — e para elevar o nível da conversa. Dados, governança, clareza estratégica e impacto comprovado são a nova linguagem do mercado.
Com juros altos e ano eleitoral, não dá mais para viver apenas de narrativa. O capital continua ativo, mas migrou para quem entrega eficiência, tem governança e gera resultados mensuráveis. A boa notícia é que a saúde segue sendo o setor com mais espaço para ganhos reais de produtividade.
2026 não marca o fim de um ciclo, mas sua profissionalização. Menos euforia, mais método. Startups que ajustarem governança, focarem em margem e recorrência e demonstrarem capacidade consistente de execução tendem a atravessar o ano melhor — e, em muitos casos, crescer justamente porque o mercado está mais racional.
Quando o capital fica seletivo, o setor melhora. E a saúde, por natureza, recompensa quem constrói valor de forma consistente. Em 2026, a régua subiu. E isso favorece quem está construindo para durar.
*Michel Goya é Diretor de Relações Institucionais da ABSS.

