Cirurgião brasileiro está entre os melhores dos EUA em segurança e resultados
O cirurgião cardíaco brasileiro Alexandre Siciliano teve seu desempenho classificado entre os 10% melhores dos Estados Unidos. A classificação se refere aos últimos dois anos e foi feita pela Society of Thoracic Surgeons (STS), a mais rigorosa entidade mundial de avaliação de qualidade em cirurgia torácica.
“Os resultados, que superam a média nacional americana em mortalidade e complicações, em um índice composto, são fruto de um trabalho de equipe meticuloso e representam um marco que reflete a capacidade de profissionais formados no Brasil atingirem o mais alto padrão global”, explica Siciliano.
O especialista conta que, ao comparar seus resultados com os de milhares de cirurgiões de centenas de instituições americanas — de grandes centros acadêmicos a hospitais comunitários —, o seu desempenho tem estado consistentemente no topo. “A STS não mede apenas se o paciente sobreviveu. Seu modelo triplo avalia: a mortalidade em 30 dias; a morbidade, que inclui complicações graves como AVC, sangramento que exige reoperação, insuficiência renal e infecções profundas; e um índice composto que combina todos esses fatores em uma única nota, considerada a medida mais fiel da performance global.”
Cada dado, segundo Siciliano, é enviado pelo respectivo hospital e passa por um processo robusto de validação e auditoria. “Os resultados são calculados de forma independente, o que lhes confere uma credibilidade inquestionável”, detalha. E todos são ajustados por risco. Ou seja, o sistema considera a idade, as doenças prévias e a urgência do caso de cada paciente para prever um resultado esperado.
Ser classificado como “acima do esperado”, como foi o caso de Siciliano, significa que seus resultados reais foram estatisticamente melhores do que a previsão para o perfil de pacientes que ele opera, superando a média nacional dos EUA.
“Embora o relatório seja individual, eu vejo esses resultados como fruto de um trabalho coletivo”, afirma. Ele descreve uma cadeia de cuidado integrada que começa na indicação cirúrgica precisa e segue com a atuação sinérgica de cardiologistas, anestesistas, perfusionistas, equipes de terapia intensiva, enfermagem especializada e fisioterapia.
“Nos EUA, o cirurgião lidera o processo, mas a excelência é construída por estrutura, processos padronizados e pessoas qualificadas, tudo dentro de uma cultura que prioriza a segurança e o aprendizado contínuo.” Para ele, o desempenho é a prova do “tripé” que sustenta a alta confiabilidade em saúde.
Marco para o Brasil
Embora os resultados reflitam sua prática atual em um centro não-acadêmico nos EUA, Siciliano vê um significado profundo para o Brasil. “Mostra que um cirurgião formado e desenvolvido profissionalmente no Brasil é capaz de atingir e manter o desempenho dos melhores centros americanos”, reflete. Mais do que isso, ele argumenta que a conquista vai além da técnica. “Obter resultados acima do esperado em um sistema estruturado para entregar o esperado requer mais. Precisa de uma abordagem diferente e de uma nova geração de líderes focados em valor”, diz ele.
Perguntado sobre os próximos passos, o cirurgião delineia uma visão ampla de melhoria contínua. “Reconhecer o sucesso e a falha é só o início. Precisamos construir ambientes com accountability e segurança psicológica, onde aprender com os erros seja imperioso.”
Para o futuro, ele aponta a evolução do conceito de qualidade, com metas como ampliar indicadores para incluir a experiência do paciente, expandir o acesso a técnicas minimamente invasivas, como a cirurgia robótica, além de integração de ferramentas avançadas de análise de dados.
“Minha visão é que a qualidade não é um ponto de chegada, mas um movimento permanente”, conclui Siciliano. “O relatório da STS é um marco importante, mas ele também representa um compromisso: o de continuar melhorando todos os dias, sempre com a equipe e, acima de tudo, com o paciente no centro.”
O médico
Alexandre Siciliano é cirurgião cardiovascular do Instituto Nacional de Cardiologia (INC), com sólida formação em gestão em saúde pela Harvard University e doutorado pela USP. É professor na UNIRIO e na FGV, onde coordena sistemas de avaliação médica de abrangência nacional (ENARE, REVALIDA). Membro Titular da Academia Nacional de Medicina, trabalho construído ao longo de um período em que esteve de licença sem vencimentos na UNIRIO e no INC, e da SBCCV, conta também com extensa produção científica e experiência na coordenação de projetos de pesquisa financiados por agências de fomento.

