Quando a medicina passa a operar como sistema, não como resposta
Por Leonardo Vedolin
Durante muito tempo, a medicina se organizou em torno da resposta. Resposta de acolhimento ao paciente, à doença que se instala, às emergências. Se antes o sucesso era medido pela eficácia da resposta, hoje os desafios do nosso tempo nos forçam a olhar para o que acontece antes do sintoma. O modelo atual é um porto seguro, mas, aos poucos, deixa de ser o único destino da medicina.
Hoje, diante de ameaças infecciosas cada vez mais rápidas e complexas, a pergunta central mudou: como estruturar melhor a capacidade de resposta antes que a pressão chegue?
É nesse ponto que o estudo “Respostas robustas, orientadas por missão, às ameaças de doenças infecciosas promovidas pela Abbott Pandemic Defense Coalition”, recentemente publicado no International Journal of Infectious Diseases, ganha relevância. Mais do que relatar descobertas científicas, ele descreve a medicina: não apenas como prática clínica ou produção de conhecimento, mas como sistema estruturado de preparação contínua.
Pandemias sempre existiram. O que mudou foi a forma como elas impactam sociedades altamente conectadas, sistemas de saúde pressionados e cadeias de decisão que precisam ser rápidas. Nesse cenário, a medicina amplia seu papel. Ela deixa de atuar apenas no momento da crise e passa a ser parte da infraestrutura de prontidão de um país.
O estudo mostra como, em apenas quatro anos, uma iniciativa internacional conseguiu estruturar uma capacidade consistente de atuação: mais de 39 mil amostras analisadas, seis surtos identificados e 23 vírus até então desconhecidos caracterizados em humanos. Esses números representam processos organizados, contínuos e escaláveis e apontam que em saúde, preparo é tão importante quanto tecnologia.
Da resposta pontual à prontidão permanente
Historicamente, muitas emergências sanitárias foram marcadas por atrasos de detecção, na comunicação e na tomada de decisão. O resultado costuma ser pressão sobre sistemas, incertezas para gestores e desgaste para profissionais de saúde.
O modelo descrito no artigo aponta para uma mudança importante, em que estruturas científicas operam de forma permanente, e não apenas reativa, a resposta deixa de ser improviso e passa a ser rotina eficiente. Foi essa lógica que permitiu a identificação precoce de surtos como os de Ebola, Oropouche e hepatite E, reduzindo o intervalo entre o primeiro sinal e a ação das autoridades sanitárias. Não se trata apenas de detectar mais rápido, mas sim de decidir o melhor.
Outro ponto relevante do estudo é o reposicionamento do diagnóstico. Os testes deixam de ser apenas suporte à prática clínica individual e passam a ocupar um lugar mais amplo, o de ferramenta estruturante da resposta em saúde pública.
O desenvolvimento ágil de ensaios para patógenos emergentes mostrou, na prática, como a capacidade diagnóstica influencia todo o sistema (da vigilância epidemiológica à definição de protocolos assistenciais). Em um ambiente de alta incerteza, dados confiáveis não são apenas informação, tornam-se base para decisões mais seguras.
Formar pessoas é fortalecer o sistema
Outro resultado consistente do trabalho realizado pela Coalizão está a formação de mais de 120 profissionais em epidemiologia, sequenciamento e análise de dados.
Esse talvez seja o legado mais duradouro da iniciativa, que uniu dezenas de instituições de saúde, públicas e privadas, de mais de 20 países, em torno de um único objetivo: a saúde da sociedade global. Além disso, o estudo também mostrou que tecnologias evoluem rápido e por isso, pessoas capacitadas constroem continuidade.
Cada profissional treinado amplia a capacidade de leitura de cenários, melhora a qualidade das decisões locais e fortalece a autonomia dos sistemas de saúde diante de novas ameaças.
Preparar-se para emergências, no fim das contas, é investir em gente.
O que esse modelo ensina à medicina contemporânea
O estudo traz uma mensagem clara de que o futuro da medicina passa menos por respostas heroicas em momentos críticos e mais por organização consistente no tempo. Hospitais bem equipados são fundamentais e pesquisas de ponta são indispensáveis, mas nada disso alcança seu potencial máximo sem coordenação, processos e visão de longo prazo.
Em um mundo onde crises sanitárias se tornam cada vez mais frequentes, a medicina é chamada a dar um passo além da assistência: ela passa a ser parte da arquitetura de resiliência dos sistemas de saúde. A pandemia mostrou o custo da improvisação. Agora, o estudo aponta para algo mais maduro a consolidação de uma medicina que não apenas reage bem às crises, mas que se organiza para enfrentá-las com mais previsibilidade, consistência e serenidade.
*Leonardo Vedolin é vice-presidente da Área Médica da Dasa.

