Janeiro Branco e o desafio de cuidar da saúde mental o ano todo
Por Marilia Batarra
Todo início de ano carrega a simbologia do recomeço. É nesse contexto que o Janeiro Branco se consolida como um convite coletivo ao cuidado com a saúde mental, propondo que ele seja incluído entre as prioridades da vida, assim como metas físicas, financeiras e profissionais. A campanha se apresenta como uma oportunidade de ampliar o diálogo sobre um tema que ainda enfrenta resistência, silenciamento e estigmas.
Falar sobre sofrimento psíquico segue sendo um desafio porque ele não é facilmente mensurável. Diferentemente de outras condições de saúde, não há exames laboratoriais que confirmem dores emocionais, angústias ou estados de exaustão. Historicamente, o adoecimento mental foi associado à fragilidade, à incapacidade ou à falta de controle, o que reforçou preconceitos e afastou muitas pessoas do cuidado. Ressignificar essa percepção é um passo fundamental para que a saúde mental seja compreendida como parte integrante da vida cotidiana, e não como algo restrito a momentos de crise.
Na prática clínica, os sinais de alerta nem sempre são evidentes. Mudanças persistentes no sono, no apetite, no humor, na energia ou na capacidade de concentração merecem atenção. Quando o sofrimento começa a interferir nas atividades do dia a dia, nos vínculos afetivos ou no desempenho profissional, buscar ajuda deixa de ser uma opção e passa a ser uma necessidade. O sono, em especial, é um importante marcador de saúde mental, já que a privação crônica está associada a maior risco de ansiedade e transtornos do humor. Cuidar precocemente é uma atitude preventiva, e não reativa. Não é preciso esperar um diagnóstico formal para procurar acompanhamento psicológico.
Nesse contexto, abordagens de cuidado que consideram o indivíduo de forma integral ganham relevância. A atuação conjunta de diferentes profissionais de saúde permite uma compreensão mais ampla do sofrimento psíquico, levando em conta aspectos emocionais, sociais e clínicos. Essa abordagem favorece a continuidade do cuidado, a personalização das estratégias terapêuticas e a redução do risco de agravamento dos quadros.
Não é possível falar de saúde mental sem considerar o estilo de vida contemporâneo. Ansiedade, depressão e burnout estão diretamente relacionados a um contexto de pressão por desempenho, metas cada vez mais altas, hiperconectividade e dificuldade de estabelecer limites entre vida pessoal e profissional. A cultura da disponibilidade permanente reduz o tempo de descanso, compromete o sono e favorece o estresse crônico. No cuidado clínico, a mudança de hábitos é parte essencial do processo terapêutico. Incentivar atividade física, organização do tempo, socialização e a busca por atividades significativas contribui tanto para a recuperação quanto para a prevenção de novos quadros.
O cuidado em saúde mental também favorece o autoconhecimento. Pessoas que compreendem seus próprios gatilhos emocionais e padrões de comportamento tendem a reconhecer sinais precoces de descompensação, reduzindo o risco de recaídas. Ao colocar o indivíduo no centro do processo terapêutico, promove-se autonomia, corresponsabilidade e fortalecimento de estratégias preventivas ao longo do tempo.
Além disso, saúde mental e saúde física são dimensões indissociáveis. Pessoas com doenças crônicas apresentam maior risco de desenvolver depressão, enquanto transtornos mentais não tratados aumentam a incidência de condições como diabetes e hipertensão. Reconhecer essa interdependência permite ajustes mais eficazes nos planos terapêuticos, associando manejo emocional, acompanhamento médico e promoção de hábitos saudáveis. O resultado é um cuidado mais resolutivo, com impacto direto na qualidade de vida.
É importante lembrar que o cuidado em saúde mental não é linear. Recaídas fazem parte do processo terapêutico e não devem ser vistas como fracasso. O acompanhamento contínuo, o vínculo com os profissionais e a flexibilidade das estratégias de cuidado são fatores protetivos que ajudam o paciente a atravessar momentos de piora e a retomar o equilíbrio.
O Janeiro Branco, portanto, não deve ser encarado como um lembrete pontual, restrito ao início do ano, mas como um convite permanente à escuta, ao acolhimento e ao cuidado contínuo com a saúde mental. Reconhecer limites, buscar apoio e cuidar das emoções ao longo de todo o ano são atitudes essenciais para uma vida mais saudável e equilibrada.
*Marilia Batarra é psicóloga e coordenadora do Programa de Saúde Mental da Amil.

