Riscos psicossociais na NR-1: um passo necessário e ainda distante
Mais de 1 bilhão de pessoas no mundo vivem hoje com transtornos emocionais, sobretudo ansiedade e depressão, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). O descompasso entre quem precisa de cuidado e quem de fato recebe tratamento nunca foi tão evidente. É um alerta global, mas também um convite urgente para repensarmos como queremos desenhar o futuro da saúde.
Se um dia “saúde” foi sinônimo quase exclusivo de ausência de doença, a próxima revolução propõe uma métrica mais complexa: a regulação do bem-estar emocional como parte estruturante do trabalho, das políticas públicas e da tecnologia. No Brasil, a atualização da Norma Regulamentadora NR-1, que trata do gerenciamento de riscos ocupacionais, passou a incluir diretrizes sobre riscos psicossociais. A saúde emocional deixa de ser apenas benefício ou acaso e passa a ser obrigação das empresas. Isso muda o jogo, porque falar de saúde mental no ambiente de trabalho também se torna uma questão de conformidade, processos e responsabilidade institucional.
Nesse cenário, a Tecnologia, especialmente a Inteligência Artificial sai do campo da promessa e assume o papel de aliada. Ela já apoia desde a interpretação do cumprimento das normas de saúde no ambiente corporativo até o suporte direto ao atendimento clínico. Revisões recentes apontam que métodos baseados em IA podem ampliar acesso, personalizar intervenções e monitorar sinais emocionais antes que a crise se instale, com modelos capazes de identificar risco depressivo em padrões de fala e sistemas que acompanham adesão e resposta a tratamentos ao longo do tempo.
A grande pergunta, portanto, não é se a IA chegará à psicologia. Ela já chegou. A questão é como vamos integrá-la para ampliar o cuidado, sem esvaziar o componente humano. Na minha visão, a combinação mais promissora é híbrida: algoritmos que sintetizam dados como sono, linguagem e biomarcadores funcionam como radar e triagem, enquanto profissionais capacitados utilizam esses sinais para decisões clínicas mais precisas, apoiados por soluções que ajudam a desenhar trajetórias de cuidado contínuas.
Nesse contexto, o terapeuta não perde protagonismo. Ao contrário, ganha melhores indicativos, ferramentas de priorização e tempo para o que é essencial: a escuta qualificada e a construção de vínculo. Mas, para que essa revolução seja positiva, é indispensável ter governança. O cuidado emocional lida com informações extremamente sensíveis e com decisões que podem mudar o curso de uma vida. Exige padrões éticos claros, proteção robusta de dados e critérios definidos de responsabilização quando vieses passam despercebidos, a tecnologia falha ou decisões automatizadas invadem terrenos que deveriam ser exclusivamente humanos. Sem essas garantias, qualquer avanço perde credibilidade e abre espaço para riscos que comprometem justamente aquilo que queremos proteger, a saúde psicológica das pessoas.
Ainda assim, nem a legislação, nem a capacidade ampliada pela IA, são suficientes para a transformação que esse cenário exige. Leis e tecnologias são, em grande medida, reflexos de uma realidade que já existe e mecanismos de resposta a riscos que se tornaram visíveis. Para além de tratar os sintomas, precisamos olhar para o desenho do trabalho em si. Isso significa repensar a ergonomia do trabalho atual, não apenas no sentido físico, mas também cognitivo, emocional e relacional, e caminhar para uma revisão sistêmica e sustentável de ambientes mais saudáveis e produtivos. Sem intencionalidade verdadeira para mudar o que sustenta o adoecimento, qualquer avanço normativo ou tecnológico corre o risco de se limitar a cumprir tabela.
Estamos às portas da próxima grande revolução da saúde, e ela não virá apenas de hospitais ou laboratórios. Virá, sobretudo, da forma como organizamos nossas relações humanas e aplicamos inteligência – humana e artificial – a elas. Trata-se de uma agenda que integra tecnologia, legislação e gestão, e que exige coragem para revisar processos organizacionais hoje tratados como imutáveis. Inteligência e tecnologias são grandes aliadas, mas não serão a solução final. Sem uma escolha consciente por ambientes de trabalho que favoreçam segurança psicológica, senso de propósito, autonomia responsável e relações mais justas, continuaremos apenas sofisticando ferramentas para lidar com consequências, sem alterar as causas.
As novas soluções precisam inovar com responsabilidade e, ao mesmo tempo, apoiar organizações na prática do que a NR-1 exige. Isso significa assumir um lugar ativo na construção de protocolos, oferecer formatos de avaliação de riscos realmente aplicáveis ao dia a dia e garantir que a tecnologia não seja usada como atalho, mas como instrumento de real desenvolvimento institucional. É nessa interseção entre compliance e inovação que nascem as soluções capazes de elevar o padrão de cuidado emocional e preparar as empresas para o futuro.
Saúde pública e privada terão de reinventar seus KPIs, seus orçamentos e seus critérios de sucesso. A maneira como empresas e instituições escolhem medir, investir e acompanhar o bem-estar emocional será determinante para sua capacidade de prosperar em um cenário cada vez mais complexo. A questão que fica para cada liderança, então, é simples e incômoda: vamos nos contentar em cumprir a lei e adotar novas tecnologias, ou estamos realmente dispostos a redesenhar o trabalho para que a saúde emocional deixe de ser exceção e se torne parte estrutural da forma como produzimos e convivemos?
*Lucas Arthur de Souza é cofundador da Telavita.

