Saúde mental na lista de prioridades: por onde começar
Por Gilberto Ururahy
Todo início de ano repete o mesmo ritual: metas de emagrecimento, planos de viagem e projetos profissionais. Mas, em muitas listas, a saúde mental ainda aparece em último lugar – quando aparece. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 5,8% da população brasileira vive com depressão, cerca de 11,7 milhões de pessoas. Ignorar esse dado é fechar os olhos para um problema de saúde pública.
A boa notícia é que a prevenção em saúde mental não é um conceito abstrato. Um estudo publicado na revista Ciência & Saúde Coletiva mostrou que, em apenas oito semanas, a combinação de exercícios leves, meditação e alimentação balanceada reduziu o estresse em 70% dos participantes, melhorou o humor em 65%, diminuiu a ansiedade em 60% e favoreceu o sono em 55%.
A OMS define saúde mental como um estado de bem-estar no qual a pessoa consegue lidar com os estresses da vida, trabalhar de forma produtiva e contribuir com sua comunidade. Não se trata só de “não ter doença”, mas de preservar a capacidade de funcionar, aprender, se relacionar e tomar decisões. Por isso, a saúde mental aparece como prioridade na Agenda 2030 da ONU (ODS 3.4) e em planos globais da OMS que defendem promoção, proteção e recuperação da saúde mental ao longo da vida.
Quando falamos em prevenção, vale lembrar os três níveis usados nas políticas de saúde. A prevenção primária busca evitar que os problemas surjam, com ações como combater o estigma, ensinar crianças e adolescentes a reconhecer emoções e criar ambientes de trabalho menos adoecedores. A prevenção secundária mira quem já está em maior risco, como pessoas sob estresse intenso, vítimas de violência, portadores de doenças crônicas ou cuidadores exaustos, oferecendo suporte psicológico precoce. Já a prevenção terciária ajuda quem tem um transtorno diagnosticado a evitar recaídas, manter o tratamento e recuperar a qualidade de vida.
No dia a dia, a prevenção em saúde mental começa por escolhas simples, mas consistentes. Sono regular, alimentação equilibrada, redução do consumo de álcool, prática de atividade física e pausas reais na rotina protegem o cérebro e o corpo. Conversar com alguém de confiança, pedir ajuda quando necessário e aprender técnicas básicas de respiração e presença no momento também fazem diferença.
Mas não basta responsabilizar o indivíduo. Fatores sociais, econômicos e ambientais pesam de forma decisiva sobre a saúde mental. Desemprego, violência, moradia precária, discriminação e jornadas exaustivas aumentam o risco de adoecimento psíquico. Empresas e gestores públicos precisam assumir seu papel: adotar políticas de prevenção de burnout, organizar cargas de trabalho mais humanas, criar canais seguros para pedidos de ajuda, capacitar lideranças para reconhecer sinais de sofrimento e garantir acesso a serviços de apoio psicológico.
Como médico que atua com medicina preventiva, vejo a saúde mental como um eixo estruturante de qualquer projeto de longevidade saudável. Neste começo de ano, vale revisar a lista de resoluções: incluir a saúde mental como prioridade, buscar informação de qualidade, vigiar sinais de alerta e, sobretudo, não adiar a decisão de procurar ajuda profissional quando necessário. Cuidar da mente é investir na capacidade de escolher melhor, trabalhar melhor e viver melhor – hoje e nas próximas décadas.
*Gilberto Ururahy é Diretor-médico especializado em medicina preventiva na Med-Rio Check-up, diretor da Câmara de Comércio França-Brasil e coordenador do Comitê de Saúde.

