Desafio: a interseção entre saúde, escolaridade e comunicação
Por Gilmara Espino
Cerca de 9,1 milhões de pessoas, o que representa 5,3% dos brasileiros com 15 anos ou mais, são analfabetas. Outros 29% de indivíduos de 15 a 64 anos, algo como 40 milhões de pessoas, são analfabetos funcionais. Todas essas pessoas precisam ou um dia precisarão de atendimento médico.
Só esses números já permitem imaginar a cena. Diante de um médico, sentindo dor e medo, muitas vezes depois de uma verdadeira maratona até conseguir atendimento, uma parte importante dos pacientes simplesmente não entende o que lhe é dito. A hipossuficiência informacional, isto é, a assimetria de informação na relação médico e paciente, contribui para aumento de custos em saúde e para piores desfechos, inclusive mais mortes.
Como referência, nos Estados Unidos órgãos públicos e guias oficiais estimam cerca de 125 mil mortes por ano ligadas à não adesão medicamentosa, além de cerca de 11% das internações e algo entre US$ 100 e US$ 300 bilhões em custos extras. Na União Europeia, estimativas frequentemente citadas falam em cerca de 200 mil mortes por ano associadas ao problema. Esses números ajudam a dimensionar o que se perde quando a pessoa não inicia o tratamento, interrompe por conta própria ou toma o medicamento de forma incorreta.
Sentir-se impotente diante de um desfecho de saúde ruim não é, porém, exclusividade de cidadãos analfabetos ou semianalfabetos. Independentemente de ter estudado na escola A ou B, de ter ou não planos de saúde, todos estamos sujeitos a não saber avaliar se nós ou alguém da família fomos, por exemplo, vítimas de um erro médico. Foi exatamente o que aconteceu comigo, que perdi meu pai precocemente, em grande parte pela falta de informação adequada para ele e para a família.
O que pode ser feito?
Um caminho para reduzir essa assimetria passa por um tripé comunicacional: letramento, conscientização e informação.
1. Letramento
Letramento em saúde é a capacidade de encontrar, entender, avaliar e usar informações de saúde para agir. No Brasil, existe um degrau importante antes mesmo de chegar ao consultório.
Em amostras brasileiras de atenção primária, usando o instrumento HLS-EU-Q6, apenas 2% dos participantes atingiram um nível considerado suficiente de letramento em saúde. O restante ficou entre problemático e inadequado. Em outro estudo, fatores como escolaridade e idade mostraram forte associação com o escore de letramento. Em Altamira, no Pará, baixa escolaridade e baixa renda aumentaram o risco de letramento insatisfatório, com 24,5% em nível inadequado e 16,5% em nível limítrofe.
Baixa renda costuma significar escolaridade mais curta e piores resultados. Além disso, há barreiras digitais. Em 2023, somente 69% das pessoas nas classes D e E eram usuárias de internet, e metade acessava apenas pelo celular. Isso limita o uso de portais de saúde, resultados de exames e aplicativos que poderiam ajudar o paciente a entender melhor seu tratamento.
2. Conscientização
Campanhas bem planejadas ajudam a corrigir percepções e a aumentar a procura por prevenção. O movimento Outubro Rosa, por exemplo, contribui de forma importante para a conscientização sobre o câncer de mama e para o aumento da busca por exames preventivos.
Por outro lado, campanhas podem induzir condutas pouco adequadas ou com benefícios questionáveis. O Novembro Azul, em alguns momentos, acabou estimulando um rastreamento pouco criterioso da saúde masculina, sem o mesmo rigor científico observado em outras campanhas.
A disseminação de informação baseada em evidências enfrenta ainda desafios crescentes, como a proliferação de notícias falsas, o uso pouco crítico das redes sociais e, mais recentemente, o uso de ferramentas de inteligência artificial para criar ou amplificar desinformação.
3. Informação baseada em dados e transparência
O terceiro pilar é a oferta de informação qualificada sobre segurança e desfechos em saúde. A ideia é ir além de listas de preferência do tipo “os mais amados” ou “os preferidos”, que medem simpatia, mas não necessariamente qualidade assistencial.
Um exemplo prático vem dos Estados Unidos. O Leapfrog Group publica, há mais de 20 anos, dados comparáveis de segurança hospitalar e atribui uma nota de A a F duas vezes por ano, com base em mais de 30 indicadores de segurança e qualidade. O site HospitalSafetyGrade.org permite ao cidadão buscar o hospital de interesse e visualizar sua nota de forma simples. É uma vitrine de transparência pensada para leigos.
*Gilmara Espino é professora do MBA de Gestão em Saúde do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino e presidente da GPeS Comunicamos Saúde.

