Brasil na vanguarda de pesquisa internacional sobre choque séptico
Por Alexandre Biasi
O Brasil ocupa um papel estratégico na pesquisa médica global, especialmente em condições críticas que impactam diretamente a saúde pública, como a sepse e o choque séptico. Estima-se que no país, 400 mil pacientes sejam internados por sepse a cada ano, com mortalidade que pode chegar a 40%, nos casos mais graves. Esses números reforçam a urgência de estratégias que melhorem o atendimento e aumentem a sobrevivência dos pacientes.
Apesar da importância do tema, há mais de 20 anos não era publicado nenhum estudo a respeito, até que em um esforço internacional sem precedentes, pesquisadores de 19 países, sob liderança de pesquisadores da Pontificia Universidad Católica de Chile, da Fundação Vale del Lili na Colômbia e do Instituto de Pesquisa Hcor, único representante brasileiro, uniram forças para estudar protocolos de tratamento do choque séptico. O Hcor ficou responsável por analisar e processar todos os dados coletados pelas demais organizações, destacando a expertise científica do nosso país e a confiança internacional na capacidade técnica.
O estudo se concentra em entender como protocolos personalizados de ressuscitação hemodinâmica podem melhorar os desfechos clínicos. O choque séptico é caracterizado por uma resposta intensa do corpo a uma infecção, podendo levar à falência de órgãos, necessidade de suporte vital intenso e morte. Apesar dos avanços em tratamentos padronizados, a mortalidade ainda é alta, e os protocolos personalizados prometem adaptar o atendimento à condição específica de cada paciente, aumentando a chance de recuperação.
A análise avaliou 1.467 pacientes com choque séptico em 86 hospitais. Metade do grupo de estudo foi tratado com o protocolo tradicional, enquanto a outra metade recebeu um tratamento personalizado, ajustado conforme o tempo de enchimento capilar (CRT) e sinais simples avaliados à beira do leito. O resultado mostrou que os pacientes tratados com o novo método ficaram menos tempo dependentes de suporte intensivo. O protocolo guiado pelo CRT fez com que o sangue voltasse a circular melhor nos tecidos: 86% dos pacientes normalizaram o tempo de enchimento capilar em 6 horas, contra 62% no grupo tradicional.
Participar de estudos multicêntricos desse porte tem impacto direto na saúde pública. Resultados consistentes podem orientar protocolos adotados por hospitais no Brasil, reduzindo complicações, diminuindo a necessidade de suporte intensivo e otimizando recursos do sistema de saúde, que enfrenta diariamente desafios como falta de leitos de UTI e alta demanda por atendimentos de emergência. Além disso, fortalece a capacidade do país de contribuir com ciência de ponta, formando profissionais altamente qualificados e integrando o Brasil à rede global de pesquisa médica.
Este estudo reforça a importância de investir em ciência e tecnologia em saúde, especialmente em doenças críticas que afetam milhares de brasileiros. A análise detalhada dos dados permitirá identificar estratégias mais eficientes, seguras e individualizadas, com potencial de salvar vidas e melhorar a qualidade de atendimento hospitalar. Por fim, destaca a força do Brasil como um país que pode exercer um papel ativo e de liderança em pesquisas internacionais com impacto real na vida das pessoas.
*Alexandre Biasi é Superintendente Médico, Ensino e Pesquisa do Hcor.
