Abril de 2026 muda a história da cirurgia de próstata no Brasil

Por Bruno Benigno

Desde 1º de abril de 2026, a cirurgia de prostatectomia robótica — e apenas ela, entre as cirurgias robóticas — passou a ter cobertura obrigatória pelos planos de saúde no Brasil. O que pode parecer um detalhe técnico é, na verdade, um divisor de águas: pela primeira vez, uma tecnologia cirúrgica de alta complexidade deixa de ser privilégio de poucos e entra formalmente no campo dos direitos assistenciais. Trata-se de um marco regulatório que encerra um ciclo histórico iniciado muito longe dos hospitais.

A cirurgia robótica nasceu fora da medicina. Seus primeiros passos foram dados nos anos 1960, em laboratórios da NASA, como resposta a um problema logístico: como realizar intervenções complexas à distância, em ambientes hostis, como o espaço. Décadas depois, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos, financiaria projetos de telecirurgia com o mesmo objetivo — levar a sala de operações ao campo de batalha. Desses programas emergiram sistemas de telepresença, braços robóticos e consoles cirúrgicos que, pouco a pouco, migraram do campo militar para o hospitalar.

Esse processo culminou no desenvolvimento do sistema da Vinci, que obteve aprovação da FDA em 2000 e rapidamente se consolidou como padrão mundial em cirurgias minimamente invasivas, sobretudo na urologia. O robô não opera sozinho: amplia os movimentos do cirurgião, filtra tremores, oferece visão tridimensional e permite precisão em espaços restritos — como a pelve masculina.

No Brasil, em 2008, a primeira prostatectomia robótica foi realizada em São Paulo. Durante anos, a tecnologia permaneceu restrita a pouquíssimos centros privados. Em 2012, havia menos de dez robôs em operação no país, todos concentrados no Sudeste. Foi nesse contexto que tive meu primeiro contato com a cirurgia robótica, em 2011, durante um congresso internacional de urologia em Washington (EUA). Em 2013, no Brasil, iniciei meu treinamento no primeiro programa estruturado de Fellowship em Cirurgia Robótica nacional, no AC Camargo Cancer Center (SP) — concluindo a certificação em 2014 e atuando na área desde então.

A expansão veio de forma acelerada na última década. O Brasil ultrapassou a marca de cem plataformas robóticas antes de 2025, com crescimento exponencial do número de procedimentos. Ainda assim, o acesso permaneceu profundamente desigual: a maioria dos robôs segue concentrada em grandes capitais, e menos de dez unidades estavam disponíveis no SUS até recentemente.

É nesse cenário que o marco regulatório ganha relevância. Em 2025, a Conitec recomendou a incorporação da prostatectomia radical assistida por robô ao SUS, reconhecendo benefícios clínicos e custo-efetividade em comparação a outras técnicas. Pouco depois, a ANS incluiu no Rol de Procedimentos, com vigência a partir de abril de 2026. Importante frisar: não se trata da liberação irrestrita da cirurgia robótica, mas especificamente da prostatectomia robótica para câncer de próstata.

O impacto dessa decisão é profundo. Ela redefine padrões de acesso, pressiona o sistema hospitalar a se adaptar e abre espaço para maior concorrência tecnológica, com a entrada de novas plataformas — inclusive asiáticas — que prometem reduzir custos e ampliar a oferta. Ao mesmo tempo, expõe um desafio central: sem políticas de interiorização e formação profissional, o risco é perpetuar desigualdades regionais sob uma nova roupagem tecnológica.

Abril de 2026 marca, portanto, mais do que uma mudança no rol da ANS. Marca o momento em que uma tecnologia nascida da pesquisa militar e espacial passa a integrar, de forma explícita, a política pública de saúde brasileira. O sucesso desse avanço não será medido apenas pelo número de robôs instalados, mas pela capacidade do país de transformar inovação em acesso, e precisão tecnológica em benefício coletivo.


*Bruno Benigno é Urologista, Oncologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e diretor da Clínica Uro Onco.

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