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Reportagem de Capa

Panorama da Saúde Digital 2026

Pesquisa TIC Saúde aponta avanço da inteligência artificial e da saúde digital no Brasil, mas destaca desafios em interoperabilidade e governança de dados.

A adoção de inteligência artificial (IA) pelos estabelecimentos de saúde brasileiros tem avançado, porém mais voltada para tarefas operacionais, como a organização de processos clínicos e administrativos. Em 2025, 18% já utilizavam a tecnologia, percentual que chegou a 31% nos estabelecimentos com mais de 50 leitos e a 29% nos Serviços de Apoio Diagnóstico e Terapêutico (SADT).

Os dados são da 12ª edição da pesquisa TIC Saúde, divulgada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) por meio do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br).

Entre os estabelecimentos que já utilizam inteligência artificial, os modelos com IA generativa são os mais adotados e estão presentes em 76% dos estabelecimentos. Na sequência, aparece a mineração de texto (52%) e a automação de processos (48%). A principal aplicação de IA está relacionada à organização de processos clínicos e administrativos, seguida por melhoria na segurança digital (36%) e aumento da eficiência dos tratamentos (32%).

Houve uma mudança metodológica para a edição de 2025 da pesquisa, com a ampliação do escopo de investigação sobre Big Data e IA para todos os estabelecimentos com computador e não apenas para aqueles com área de TI, como foi feito até 2024. “Nos últimos anos, observamos uma rápida disseminação das tecnologias de inteligência artificial. Por isso, tornou-se importante ampliar a investigação para compreender como essas tecnologias vêm sendo incorporadas pelo conjunto dos estabelecimentos de saúde”, explica Alexandre Barbosa, gerente do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br).

Infraestrutura de TIC

Em 2025, o acesso a computadores e à internet permaneceu praticamente universal nos estabelecimentos de saúde brasileiros, alcançando 99% das unidades, sem diferenças entre os setores público e privado. Os computadores de mesa seguem como principal dispositivo (97%), acompanhados por notebooks (71%) e tablets (41%).

Observam-se diferenças importantes no perfil de uso desses dispositivos. A utilização de notebooks é mais frequente em estabelecimentos privados (83%) e naqueles com mais de 50 leitos de internação (91%). Já os tablets apresentam maior presença em estabelecimentos públicos (53%) e nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) (63%), possivelmente associados às atividades das equipes de atenção primária.

A universalização da conectividade reforça seu papel como elemento estruturante para o funcionamento dos serviços de saúde, viabilizando o uso de sistemas eletrônicos, a comunicação entre profissionais e a oferta de serviços digitais.

Para Renata Vicentini Mielli, coordenadora do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), a intensificação da transformação digital tem ampliado de forma significativa o papel da internet como infraestrutura essencial para o exercício de direitos e para o acesso à informação, à educação, à participação social e à produção de conhecimento. “A internet configura-se também como um insumo estratégico para formular, implementar e avaliar políticas públicas voltadas à inovação e ao desenvolvimento econômico e social. Em um contexto de rápidas mudanças tecnológicas, de expansão das plataformas digitais e do uso crescente de sistemas automatizados baseados em dados, ampliam-se os desafios associados à organização do ecossistema digital. Garantir que esse ecossistema reduza desigualdades, proteja direitos e esteja a serviço do interesse público e da soberania nacional é uma tarefa urgente que exige arranjos institucionais participativos, capazes de garantir uma governança democrática”, destaca.

Barreiras à adoção da IA e uso restrito de Big Data

Apesar do crescimento contínuo, a adoção de IA ainda enfrenta obstáculos significativos: nos hospitais com mais de 50 leitos, os principais desafios apontados pelos gestores são os custos elevados (63%), a falta de priorização institucional (56%) e as limitações relacionadas a dados e capacitação (51%). Já nos SADT, prevalecem fatores como falta de interesse (60%), ausência de prioridade (64%) e preocupações com privacidade de dados (50%).

Esses resultados indicam que a adoção da IA depende não apenas da infraestrutura tecnológica, mas também de capacidades institucionais, da governança de dados e do reconhecimento estratégico dessa inovação. 

“O avanço do uso da inteligência artificial na saúde exige profissionais qualificados para que essa tecnologia seja aplicada de forma segura e responsável. Além disso, a consolidação de diretrizes e marcos regulatórios é fundamental para sustentar a adoção ética da IA em um setor que lida com informações sensíveis e impacta diretamente no cuidado com os pacientes” destaca Luciana Portilho, coordenadora de projetos de pesquisas do Cetic.br.

A pesquisa também revela um uso ainda restrito de Big Data no setor. Somente 9% dos estabelecimentos realizaram análises com apoio dessa tecnologia em 2025, com maior incidência em estabelecimentos privados (11%) e em hospitais de maior porte, com mais de 50 leitos (30%). As análises concentram-se, principalmente, em dados gerados pelas próprias instituições, como prontuários e registros administrativos.

Interoperabilidade como desafio

Segundo a pesquisa, a troca de dados de saúde entre diferentes estabelecimentos ainda representa um desafio. Embora a digitalização avance no setor, com 92% dos estabelecimentos utilizando sistemas eletrônicos para registros de informações dos pacientes, menos da metade (44%) dos estabelecimentos possuem sistemas que permitam o envio ou recebimento de encaminhamentos eletrônicos, sendo que há uma maior incidência no setor público (64%) do que no privado (28%).

Além disso, 41% dos estabelecimentos podem enviar ou receber relatórios sobre assistências prestadas ao paciente (55% dos públicos e 29% dos privados), e 37% podem enviar ou receber resultados de exames laboratoriais (47% dos públicos e 29% dos privados).

Nesse contexto, pela primeira vez a TIC Saúde investigou a integração à Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) do Ministério da Saúde, considerada estratégica para a interoperabilidade e a continuidade do cuidado. Os dados indicam que 44% dos estabelecimentos estão conectados à rede, com maior presença nas UBSs (72%) e no setor público (64%).

“A interoperabilidade entre os sistemas de saúde pode contribuir para ampliar a eficiência dos serviços e melhorar a experiência do paciente, ao facilitar o compartilhamento seguro de informações clínicas entre diferentes estabelecimentos”, explica Portilho.

Avanço gradual da saúde apoiada em tecnologia digital no país

A conectividade tem impulsionado significativamente o setor. A expansão do acesso à internet, a ampliação das conexões via cabo e fibra ótica e o aumento das velocidades têm contribuído para o melhor funcionamento dos serviços de saúde, viabilizando o uso de sistemas eletrônicos, a comunicação entre profissionais e a oferta de novos serviços.

Em 2025, serviços online disponibilizados aos pacientes, como a visualização de resultados de exames, foram oferecidos por 39% dos estabelecimentos; o agendamento de consultas, por 34%; e o de exames, por 32%. O maior avanço ocorreu na interação online com a equipe de saúde, que saltou de 16% em 2023 para 35% em 2025, evidenciando uma maior adoção de canais digitais de comunicação com os pacientes.

A oferta desses serviços varia conforme o tipo de estabelecimento, com maior presença em SADT para visualização de resultados de exames (72%) e nas UBSs para interação com equipes (42%).

Entre os serviços de telessaúde, em 2025, a teleconsultoria foi a modalidade mais difundida (36%), seguida por teleconsulta (28%), telediagnóstico (27%) e telemonitoramento (20%). Todos esses serviços apresentaram crescimento em relação aos anos anteriores, o que indica uma expansão gradual do atendimento remoto e uma maior integração entre profissionais de saúde.

Segurança da informação e proteção de dados

A adoção de práticas de segurança da informação permanece limitada nos estabelecimentos de saúde. Em 2025, 42% das unidades possuíam política de segurança da informação, com diferenças expressivas entre os setores público (28%) e privado (54%). Os estabelecimentos com mais de 50 leitos (72%) e os SADT (64%) apresentaram níveis mais elevados de adoção dessas políticas. Além disso, cerca de metade dos estabelecimentos (47%) ministrou treinamentos em segurança da informação para seus funcionários, medida fundamental para mitigar riscos associados ao uso inadequado de sistemas e à exposição de dados sensíveis.

No que se refere à adequação à Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), os resultados indicam que menos da metade dos estabelecimentos implementou as ações investigadas pela pesquisa. A prática mais comum foi a realização de campanhas internas de conscientização (46%), enquanto medidas mais robustas, como a definição de encarregado de dados (30%) e a implementação de planos de resposta a incidentes (30%), permanecem restritas a uma parcela menor de estabelecimentos. Esses resultados evidenciam desafios na consolidação da governança de dados no contexto da saúde digital.

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Metodologia da pesquisa e acesso aos dados

A 12ª edição da pesquisa TIC Saúde coletou dados sobre os estabelecimentos de saúde. A coleta dos dados foi realizada via entrevistas por telefone e questionário web com 3.270 gestores entre fevereiro e novembro de 2025. Os resultados da pesquisa, incluindo as tabelas de proporções, totais e margens de erro, estão disponíveis no site do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br).


Faça o download do estudo em www.cetic.br

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