Perspectiva Global

Panorama da Saúde Digital 2021

Acompanhe o Panorama da Saúde Digital 2021, com as perspectivas apresentadas por renomados especialistas do Brasil e do mundo durante a 2º edição do Global Summit Telemedicine & Digital Health.

A segunda edição do Global Summit Telemedicine & Digital Health reuniu especialistas internacionais e nacionais para debater as tendências que estão transfor­mando o mundo da saúde. O evento, realizado pela Associação Paulista de Medicina (APM), em parceria com o Transamerica Expo Center, contou com mais de 120 palestrantes de 13 países, que trouxeram à tona diversos aspectos da nova era da saúde digital e da telemedicina no Brasil e no mundo.

“A pandemia da Covid-19 desencadeou um crescimento exponencial dessas áreas globalmente, mostrando que precisamos de agilidade no desenvolvimento de soluções e de serviços digitais que atendam às necessidades de saúde neste novo mundo em que estamos vivendo”, destacou o neurologista e presidente do Conselho Curador do Global Summit Telemedicine & Digital Health, Jefferson Gomes Fernandes.

Para ele, os debates mostraram que a telemedicina e a telessaúde estão crescendo de forma impressionante no Brasil, transformando o setor. “A telemedicina e a telessaúde estão aumentando o acesso das pessoas aos cuidados com a saúde, permitindo uma maior e mais ágil resolutividade dos problemas de saúde, independentemente de onde as pessoas estão localizadas, e oferecendo um melhor desfecho para esses problemas ao prover atendimento e tratamento adequados. As soluções digitais estão mostrando que podem ser transversais e ajudar na continuidade dos cuidados às pessoas, de forma integral, quebrando o ciclo da fragmentação desses cuidados com a saúde”, ressaltou o presidente do Conselho Curador do Global Summit.

E se a telemedicina e a telessaúde podem ajudar na logística do atendi­mento, também podem contribuir para reduzir desperdícios e os custos com a saúde. Na visão de Fernandes, os debates enfatizaram que a medici­na será mais humanizada a partir dos avanços tecnológicos, pois coloca o médico e o paciente mais próximos. “A medicina do futuro vai avançar ainda mais com a tecnologia, isso é inevitável. A telemedicina pratica­da de forma responsável possibilita uma medicina conectada, com mais facilidade para orientar o paciente e integrar os serviços disponibilizados, o que gera uma melhor experiência do usuário e uma melhor gestão do sistema de saúde”.

Em mais um ano de parceria com o Global Summit, a Medicina S/A traz as perspectivas e tendências apre­sentadas durante o evento.

DIRETRIZES NACIONAIS PARA A TELESSAÚDE

A pandemia de Covid-19 acelerou processos que vinham sendo encaminhados no campo da saúde digital. A telemedicina, por exemplo, ganhou força e adeptos durante o período de isolamento social. No Ministério da Saúde, os avanços seguem, não sem enfrentar inúmeros desafios inerentes a um país continental, com tantas particularidades.

De acordo com os especialistas do Ministério da Saúde, Adriana da Silva e Souza, diretora do departamento de saúde digital, Luiz Júpiter, coordenador de dados abertos e análise prospectiva em saúde, e Juliana Pereira de Souza Zinader (foto), coordenadora-geral de inovação em sistemas digitais, o Governo Federal reconhe­ce os principais desafios a serem vencidos. Entre eles, a trans­posição de barreiras socioeconômicas, culturais e geográficas para ampliar o acesso da população; redução de custo para o SUS associado à maior qualidade do atendimento e à satisfação do paciente, garantindo cuidados de saúde seguros, oportunos, efetivos e eficientes; redução das filas e do tempo de espera para atendimentos e diagnósticos; e melhoria da dinâmica, evitando deslocamentos desnecessários tanto para o paciente quanto para os profissionais de saúde.

“Entendemos que vamos avançar com essas ações no Brasil. Sabemos que as ações de telessaúde estão integradas a um ce­nário que precisa ser muito mais explorado”, explica Adriana da Silva e Souza.

Entre as metas que o Ministério da Saúde estabeleceu para que sejam alcançadas até 2022 estão o tabelamento de valores das ações em saúde digital, sempre em parceria com as agências reguladoras e os conselhos de classe, visando abertura no mercado para profissionais de saúde. Sobre a percepção dos médicos sobre a adesão tecnológica – visto que havia resistência à telemedicina por parte do corpo clínico –, Adria­na esclareceu que, “se esses profissionais estão capacitados, com a regulamentação necessária, o tabelamento de valores pode suprir a necessidade tão questionada pela categoria”.

As outras metas do governo envolvem capa­citação técnica e infraestrutura, ampliação das redes de cooperação técnica, fortalecimento das ferramentas de monitoramento e fiscalização de recursos, construção de políticas públicas e apri­moramento da rede de ensino.

GESTÃO E REDE DE DADOS

É inviável tratar sobre saúde digital sem men­cionar a gestão dos inúmeros dados que per­meiam os sistemas de atendimento no mundo. “A gente tem desafios enormes em relação à quantidade de dados gerados”, pontuou Júpiter, enfatizando que esse problema atinge inclu­sive a esfera financeira. “Devemos ter bilhões de dados nas plataformas e não temos como trabalhar esses dados sem ferramentas tec­nológicas poderosas que agregam o sistema de informação, trabalham junto aos pesquisa­dores, e implementam modelos de inteligência artificial para que seja possível fazer a análise e tomar decisões”, complementou.

Muitos desses dados estão sendo trocados através da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), que visa criar um prontuário único de saúde por meio da troca de informações entre os diversos níveis de atenção. “Estamos pavimentando essa estrada e, na sequência, alimentaremos com informações seguindo nossa estratégia inicial”, esclareceu Juliana sobre o desenvolvimento da rede nos últimos meses, que foi, obviamente, impulsionado pela Covid-19, mas já havia sido previsto para ser iniciado como uma forma de permitir a tran­sição e a continuidade do cuidado nos setores público e privado.

Enquanto a RNDS conecta todos os atores e os dados que são trocados em todo o país, estabelecendo o conceito de uma plataforma nacional de inovação, informação e serviços digitais, na ponta da cadeia – onde está o pa­ciente – há um aplicativo que concentra essas informações clínicas: Conecte SUS Cidadão.

“A ideia é estar em evolução”, disse a especia­lista sobre o app já disponível para download e que permite acesso à caderneta de vacinas, aos diagnósticos e à oferta de medicamentos por meio do Sistema Único de Saúde. “Assim, o cidadão brasileiro tem todas as suas infor­mações de saúde concentradas”, completou.

SUS 5.0

A tecnologia deve ser utilizada para combater a desigualdade de acesso no país? Para Patrícia Ellen (foto), secretária de Desenvol­vimento Econômico do Estado de São Paulo, sem dúvidas. “Um SUS 5.0 faz uma revolução na qualidade de vida da população mais necessitada”, disse. Para ela, o teleatendimento precisa ser acessível para todos.

A pandemia do novo coronavírus mostrou que a tecnologia é uma grande aliada e que a telessaúde veio para ficar. Durante a crise, em alguns casos, esse método foi a única alternativa. “A telemedicina melhora o acesso, a experiência do paciente, a ade­rência ao cuidado e, assim, o desfecho da saúde como um todo. E não só a teleconsulta, mas a utilização de dados, por exemplo, nos ajuda com a distribuição de recursos e a chegar onde não chegávamos”, acrescentou Eduardo Cordioli, gerente médico de Telemedicina no Hospital Israelita Albert Einstein.

O governo de São Paulo, por exemplo, implantou programas e planos de ação dedicados a promover a digitalização e a transformação digital na saúde no estado. “Vivemos 6 anos em 6 meses. O que antes era um plano se tornou uma emergência. Tivemos que mapear, como nunca havia sido feito antes, o sistema de saúde inteiro, tanto o público quanto o privado”, ressaltou a secretária de Desen­volvimento Econômico do Estado de São Paulo.

Essas inovações revolucionaram a medicina e o cuidado com o paciente. No entanto, mesmo com benefícios claros, a digitalização da saúde ainda enfrenta dois grandes desafios: implementação e regulamentação. A utilização da telemedicina em escala no estado de SP, por exemplo, só foi possível porque, em abril passado, o governo federal apro­vou uma medida provisória que permitiu seu uso durante a crise. “Como fica o legado dessas tec­nologias no pós-pandemia?”, questionou Patrícia.

Para Cordioli, o papel das lideranças em saúde digital é cobrar essa regulamentação dos órgãos responsáveis. “Precisamos dialogar para expor as melhores práticas. Não podemos aceitar um ‘não’ sem cobrar explicações científicas. As entidades de saúde precisam trocar experiências sobre o que funciona e o que não funciona”, disse, acrescen­tando que a falta de regulamentação da telessaúde pode desmotivar o investimento tecnológico e o treinamento de profissionais nessa área.

“A verdadeira telemedicina não nasce sem ne­nhuma boa educação feita com avaliação de com­petências práticas. Sem isso, ela será superficial e prejudicial. Esse método médico não pode existir sem um centro de auditoria de qualidade de ser­viços. Os líderes precisam começar a pensar toda a cadeia para termos uma telessaúde responsável e ética”, completou Chao Lung Wen (foto), professor da Universidade de São Paulo (USP).

QUEBRANDO PARADIGMAS EM BUSCA DE MAIS INOVAÇÃO

“A saúde nunca será somente digital, ela sempre será híbrida”, argumentou Wen. O professor co­mentou durante o evento sobre a necessidade de se repensar o setor como um todo e analisar os significados de alguns conceitos, a começar pelo termo ‘saúde digital’. “Se ela fosse digital, teríamos que destruir todos os hospitais. O que defendemos é uma assistência médica conectada, onde todo o sistema existente se integra em uma camada digi­tal. Usamos o digital para expandir o presencial”.

A quebra de paradigmas é um agente de mudanças. Na gestão em saúde, as renovações são essenciais para a promoção de uma assistência à saúde cada vez melhor e mais acessível para a população. É o caso de se pensar a ampliação do uso da teleme­dicina fracionada – que pode ser acessada on-line ou sem conexão à internet. “O uso dessa tecnologia permite a inclusão de pessoas mais humildes dentro do sistema”, afirma Wen.

Um exemplo de telemedicina não sincronizada é o aplicativo lançado em 2020 pelo Ministério da Saúde para combater o coronavírus. A ferramenta “Coronavírus – SUS”, além de fornecer informações sobre a pandemia e guias sobre como se prevenir do vírus, oferece uma espécie de “triagem virtual” para o usuário. Através de um questionário, o cidadão que estiver com suspeita de infecção pode conferir se os sintomas são compatíveis com a Covid-19.

Para o professor, é preciso pensar que a telemedicina é feita para pessoas e não para pacientes. “O cuidado centrado no paciente é arcaico e linear. O paciente é passivo e refém de doenças. A atenção precisa ser centrada em pessoas. Quando a gente pensa em um futuro para saúde, precisamos pensar em quantas coisas conseguiremos quebrar para criar uma rup­tura. Não se trata apenas de teleconsulta”, finalizou.

TRANSFORMAÇÃO DIGITAL DEVE TORNAR A SAÚDE MAIS ACESSÍVEL E EFICIENTE

Assim como em vários outros setores da economia mundial, te­mos visto uma numerosa multiplicação das plataformas web e de dispositivos móveis com aplicações em saúde. A transformação digital no setor está tornando a medicina mais pessoal, acurada e orientada por dados, utilizando tecnologias inteligentes para capa­citar o paciente, por meio de ferramentas úteis, no gerenciamento eficiente de sua saúde.

As inovações em informações e comunicação têm transformado todos os setores da sociedade, e o mercado global de healthcare é cada vez mais impulsionado pelo monitoramento remoto, pela tec­nologia da informação e a pela inteligência artificial. “Em saúde, temos investido cada vez mais energia em refinar a nossa visão de futuro e identificar quais são os pontos-chaves para nos aproxi­mar dos empreendedores e dos executivos que têm liderado essa transformação”, explicou Felipe Nobre, sócio de Investimentos da Velt Partners.

Nas últimas décadas, segundo Nobre, ainda que os avanços nas diversas áreas da medicina tenham crescido, no que se refere aos usuários, a evolução tem sido mais lenta. “Ainda temos uma cadeia custosa, baseada em relacionamentos analógicos e pouco amigá­veis. Os avanços que vemos nos parecem incrementais até agora”, lamentou, mas disse acreditar que a maior oferta de profissionais deve aumentar o número de médicos dispostos a experimentar novas soluções digitais e novos modelos de remuneração.

Para ele, no pós-pandemia da Covid-19, o setor deve passar por transformações alavancadas pelos avanços da tecnologia e flexi­bilização regulatória, como tem ocorrido com a telemedicina, que, aliada à prescrição digital, tem melhorado a saúde da popula­ção, facilitando a integração dos serviços e reduzindo custos.

O momento é mesmo propício para se investir em saúde, na opinião de Felipe Ro­drigues Affonso, diretor do Softbank Group International, tanto pelas oportunidades que a amplitude de novos negócios traz, como pela visão de que a transformação digital deverá transformar o setor em algo mais acessível, integrado e eficiente, beneficiando os usuários e a sociedade como um todo.

O cenário atual forçou desde grandes orga­nizações de saúde até médicos a utilizarem as tecnologias disponíveis para manter o atendimento e o acompanhamento de seus pacientes. Nesse contexto, há diversas pos­sibilidades de reconhecimento e desenvolvi­mento da potencialidade da transformação digital na saúde.

É preciso desmistificar o receio de que essas transformações não são benéficas ao relacionamento médico-paciente. “Antiga­mente, olhava-se somente os custos com as inovações. Agora, vemos que os aplica­tivos e demais ferramentas são parceiros do médico e do usuário, com uma oferta de serviços, inclusive, para facilitar a adesão aos tratamentos”, explicou Affonso, para quem as soluções digitais complementam e aprimoram os modelos de prestação de serviços integrados e centrados nas pes­soas e na melhoria contínua da saúde da população, garantindo equidade.

INVESTIMENTO EM CIÊNCIA

Com a ideia da inovação, é muito importante financiar a ciência para que a tecnologia possa atender à população. Segundo Marie-Hélène Bèland, vice-cônsul do Canadá, o nível de capacidade científica é muito relevante para a saúde em todo o mundo. “As atividades do setor estão intimamente ligadas à informação e à comunicação e dependem de conhecimento e tecnologia para viabilizar mecanismos inovadores, efetivos, eficazes e eficientes que ampliem o alcance e aumentem a qualidade, a resolubilidade e a humanização dos diversos aspectos da atenção em saúde”, explicou.

A experiência bem-sucedida do Canadá, que investiu um milhão de dólares em cinco superaglomerados (superclusters) para desenvol­ver tecnologias nos vários setores da economia, em sua maior parte da saúde, vem fomentando a inovação e superando os desafios de maneira estratégica.

A inteligência artificial, o enfoque no ensino e na pesquisa e a con­trapartida da iniciativa privada para cada dólar investido pelo governo no projeto vêm promovendo o desenvolvimento do Canadá em áreas como engenharia genética, biomedicina, neurociência, genômica e medicina regenerativa, consideradas prioritárias e muito importantes. “A saúde digital já recebeu 8,6 bilhões de dólares e as plataformas e soluções para o setor estão auxiliando inclusive nos estudos sobre a Covid-19, que, aliás, podem ser compartilhados com os outros países”, destacou Bèland.

Por isso, a transformação digital deve ser um processo estrutura­do e estratégico de mudança de mindset e cultura organizacional, rumo a um modelo de gestão ágil e digital, pois são nos momentos de adversidades que surgem oportunidades com grande potencial de mudanças. “Temos o aparato necessário para revolucionar o se­tor de saúde brasileiro. Estamos vivendo um momento de diálogo e atenção, mas também de inovação, reinvenção e desenvolvimento. Muitas startups estão nascendo, e as empresas mais tradicionais devem estar preparadas para arriscar e reinventar os seus processos”, ressaltou Felipe Affonso.

SAÚDE DIGITAL DEVE ANDAR LADO A LADO COM A PRESENCIAL

A chefe médica de Transformação Digital da CUF Saúde, de Portugal, Micaela Seemann Monteiro (foto), dividiu sua experiên­cia na concepção, liderança e implementação de projetos de telessaúde, abordando como as saúdes digital e presencial devem andar lado a lado, de forma humanizada.

De acordo com a especialista, o envelhecimento da popula­ção e o aumento da incidência de doenças crônicas são uma ameaça para a sustentabilidade no setor de saúde no mundo. Neste cenário, o acompanhamento individual precoce e ao longo da vida ganha importância, sendo o atendimento a dis­tância um enorme aliado no enfrentamento dessas questões.

“A atenção médica tem que mudar”, sentencia Micaela. “Te­mos que sair da atenção apenas aos episódios, indo para o gerenciamento contínuo e o cuidado centrado na saúde per­sonalizada e no lar”, afirma.

Para Micaela, esses objetivos não serão alcançados sem o uso do poder dos dados e da tecnologia a serviço de uma jornada híbrida do paciente, com teleconsultas que coexistem com atendimentos presenciais.

Em pesquisa com os mais de 1.200 médicos que fizeram os atendimentos via teleconsulta, ainda que tenha sido constatado um alto nível de satis­fação, 65% deles acreditam que a modalidade de teleconsulta deve continuar após a pandemia. Para Micaela, esse número é baixo: “A comunidade médica precisa aprender a diferenciar quando uma con­sulta on-line pode ser extremamente adequada, e quando é imprescindível a presença física”, afirma.

A especialista reconhece que há limitações di­fíceis de ultrapassar no teleatendimento, como a impossibilidade de auscultar ou apalpar, o que, para ela, não invalida que a teleconsulta se revele uma ferramenta útil frente a um leque variado de necessidades.

SAÚDE BASEADA EM VALOR E UM NOVO MODELO DE CUIDADO

As discussões sobre a implementação da Saúde Baseada em Valor no Brasil já se prolongam há alguns anos, mas avanços na adesão a esse novo modelo de cuidado já podem ser sentidos. Encarar o sistema sob a perspectiva da saúde baseada em valor soa como a melhor forma de estimular, de fato, a saúde, e não a doença.

“Quando a saúde vira apenas business, acontece o que vemos nos Estados Unidos, onde quase 20% do PIB estão dedicados ao setor e ele ainda não entrega, de fato, melhor qualidade e maior expec­tativa de vida”, explicou Sidney Klajner (foto), presidente do Hospital Israelita Albert Einstein.

Porém, a mudança não pode ser desvalorizada, visto que é arriscado, na opinião do executivo, investir em transformação com base em análises superficiais. Na opinião de Klajner, a real medicina baseada em valor não pode estar unicamente fundamentada na previsibilidade de custos. “Ela deve se basear no desfecho, no resultado do paciente, na redução da mortalidade e dos índices de complicações. Isso é muito diferente da previsibilidade de custos. Porém, quando somamos as duas coisas, entendemos exa­tamente onde está o valor agregado”, disse.

Para Marcia Makdisse, educadora, mentora e consultora em Value Based Healthcare (VBHC), é equivocado apontar a saúde baseada em valor como um novo modelo de remuneração, o que seria simplista demais. “Não gosto de chamar a VBHC de modelo de negócio, pois, para mim, é um novo modelo de cuidado que demanda um novo modelo de remuneração”, esclarece.

Mas essa mudança de ótica é complexa e exige um alinhamento entre todos os envolvidos. Segundo a especialista, além de uma percepção equivocada do que são, de fato, a saúde baseada em valor e as suas implicações na administração da saúde, há duas outras fortes barreiras à sua imple­mentação: a falta de recursos humanos capacitados e a interoperabi­lidade. Além disso, Márcia enfatizou o papel das agências reguladoras. “Qualquer mudança demanda incentivos regulatórios”, comentou.

Concordando com os impactos positivos da migração de cultura, Fernanda Oliveira, coordenadora do Grupo de Trabalho Valor em Saúde da ABIMED (Associação Brasileira da Indústria de Alta Tec­nologia de Produtos para a Saúde), trouxe uma perspectiva sobre a relevância da tecnologia como aliada nesse processo. “A inteligência artificial é uma realidade crescente, e existe um imenso potencial dessa tecnologia pautar o modelo de saúde baseada em valor”, pontuou. Para a especialista, é preciso apenas compreender que a inteligência artificial pode ser utilizada durante todo o processo, e não apenas quando a implementação já foi feita e é preciso analisar os dados gerados. “Muitas vezes, a inteligência artificial é posta próxima do valor, onde já há organização do sistema e ela se aplica à tomada de decisão. Porém, temos que começar a pensar como a inteligência artificial auxilia a passar do volume para o valor”, comentou.

O AVANÇO DAS STARTUPS

Imerso no mercado altamente movimentado das startups, Gustavo Araujo, fundador do Distrito Inova HC, enfatizou como o setor de saúde vem ganhando espaço no empreende­dorismo. Com mais de 60 healthtechs instaladas no Distrito Inova HC, o setor deve abraçar muita tecnologia nos próximos anos, inclusive para viabilizar a adesão à saúde baseada em valor. “Quando começamos, sabíamos que todo o trabalho das healthtechs deveria estar voltado a melhorar o acesso da população, levando saúde – por meio de tecnologia – para locais brasileiros mais remotos, e à redução dos custos”, disse.

Lembrando que a maior parte dessas startups foi criada há apenas três anos, Araújo vislumbra meses muito positivos pela frente. “Esperamos, para os próximos anos, um volume de investimentos muito maior em healthtechs agora que o mercado tem matéria-prima de startups e empreendedores suficientes para gerar impacto”, comentou após confirmar que o setor já vinha aquecido na pré-pandemia, sofreu nos meses mais críticos, mas já se recuperou e está novamente aquecido e fortalecido.

Segundo ele, são nove as categorias principais dessas heal­thtechs: acesso à informação; gestão e prontuário eletrônico do paciente; marketplace; inteligência artificial e big data; me­dical devices; telemedicina; farmacêutica e diagnóstico; rela­cionamento com pacientes; e wearables e internet das coisas.

Fabricio Campolina, diretor sênior de Transformação da Saúde da Johnson & Johnson Medical Latam, ainda comen­tou que o grande objetivo das healthtechs é resolver as dores dos hospitais, pacientes e profissionais de saúde. Além disso, mencionou que são essas as empresas que podem auxiliar na resolução dos entraves que impedem o avanço do Brasil para o próximo nível quando se pensa em saúde baseada em valor: “O desafio do sistema brasileiro que não investiu na criação de uma estrutura de dados provavelmente será sanado por essas startups”.

A DIGITALIZAÇÃO DA SAÚDE NA JORNADA DO TRATAMENTO

As organizações e os sistemas de saúde precisam investir em plataformas para absorver dados clínicos e desenhar os melhores cuidados com os pacientes, e em dados que permitam o avanço de pesquisas e estudos clínicos. É o que defende Esti Shelly (foto), diretora de Digital Health do Ministério da Saúde de Israel. Segundo ela, o processo de transformação digital da saúde requer uma estru­turação sobre dois pilares.

“Primeiro, é preciso investir em transformação clínica, oferecendo cuidados mais personalizados, preditivos e proativos. É necessário um sistema desenvolvido para fomentar tudo isso. Precisamos de um modelo disruptivo e da colaboração de empresas. Habilida­des e tecnologias até então não disponíveis são imprescindíveis nessa etapa. Além disso, é preciso uma atualização constante de profissionais da saúde com qualificações e habilidades que não tinham anteriormente, para que saibam lidar com sistemas de dados e operações cada vez mais inovadores”.

Shelly afirma que, mais do que nunca, é necessário ter um olhar mais atento às ferramentas que empoderem os pacientes e per­mitam um serviço mais personalizado e preventivo. “Precisamos garantir que as ofertas de saúde com qualidade cheguem a todos, independente do perfil ou da comunidade em que se encontram. Deve haver acesso justo à saúde, seja digital ou presencial”, explicou.

A diretora apontou que, muito embora o processo de licitações em Israel ainda seja complexo e burocrático, alguns projetos pi­lotos estão buscando trazer mais inovações para o sistema de saúde. “Tivemos 54 programas pilotos em 30 organizações de saúde”, revelou. De olho no futuro da saúde, ela apontou alguns caminhos, como ambiente regulatório favorável, estabelecimento de infraestrutura nacional e promoção de parcerias.

NOVOS PENSADORES PARA O AMANHÃ

Um dos principais influenciadores mundiais em saúde digital e realidade virtual, Shafi Ahmed (foto), cirurgião, professor da Bradford University e da Singularity University, e decano associado do Bart’s Royal London Hospital, o maior hospital da Europa ocidental, defende que “a pandemia foi um trampolim em direção ao futuro”.

Para Ahmed, a Inteligência Artificial ganha cada vez mais rele­vância, permitindo novos processos operacionais de atendimen­to, implantando modelos de trabalho remoto que proporcionam atendimento médico cada vez mais facilitado, e agilizando a oferta de exames, consultas e receituários eletrônicos por meio de cliques, o que, em um passado nem tão distante, exigiria um pouco mais de tempo.

“Estou falando de um novo Design Thinking, de agilidade de processos em todos os níveis da saúde, do melhor entendimento dos profissionais sobre recursos tecnológicos. Precisamos ser mais digitais. Por isso, é necessário adotar um novo olhar para a importância de investir em tecnologia, inovação e empreen­dedorismo, e isso deve ser feito agora, com essa geração”, enfatiza.

Para ele, faz-se necessário pensar em novas in­tervenções e melhorias. “Isso também inclui a for­mação de recursos humanos conectados com esse momento, novos modelos de parcerias que primem pela excelência e agilidade de processos no sistema de saúde”, observou.

Visionário, em 2014 Shafi usou um Google Glass para captar, em primeira pessoa, uma cirurgia. Dois anos depois, realizou a primeira transmissão ao vivo, em realidade virtual, de um procedimento cirúrgico para a retirada do câncer de cólon de um paciente, feito que lhe rendeu grandes reconhecimentos da indústria, incluindo o Future NHS Award e o Webit International Award de melhor uso de inovação digital em saúde.

O especialista abordou ainda os inúmeros impactos positivos da Inteligência Artificial. Por exemplo, o escaneamento e o acesso a dados e imagens com qualidade cada vez maior auxiliam significativa­mente toda a jornada de saúde. “Algoritmos nos ajudam a estruturar de forma mais assertiva dife­rentes tipos de tratamento e atendimentos. Esta­mos transformando as formas de gestão de saúde no mundo. O desafio agora é repensar os modelos atuais de cuidados sem pensar apenas nos custos. É sobre planejar toda a experiência do paciente. É a mudança na gestão. Usar os recursos disponíveis de forma inteligente. É investir hoje para garantir um futuro promissor”, finaliza.


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