Entrevista

Medicina do Amanhã

A inteligência artificial está influenciando vários setores, inclusive a medicina, ao passo que a in­dústria farmacêutica, outrora imbatível e altamente rentável, está perdendo espaço em razão da exigência por parte de médicos e pacientes. É o surgimento da “Medicina do Amanhã”, tema que dá nome ao livro de Pedro Schestatsky, médico neurologista, professor, pesquisador e empreendedor de novas tecnologias em medicina. No livro, ele põe em xeque o tradicionalismo da área médica para defender um novo caminho: a Medicina Personalizada, baseada em Big Data e na Inteligência Artificial acessível.

Em entrevista à Medicina S/A, ele conta que, num futuro próximo, os dados individuais serão utilizados para guiar o paciente em suas decisões de saúde – o que, até então, era feito apenas por meio de pesqui­sas e evidências extraídas de grandes populações.

Não é de hoje que a tecnologia tem revolucio­nado a indústria da saúde. No entanto, a pandemia acelerou de forma exponencial a transformação digital no setor. O que podemos considerar como a “Medicina do Amanhã” e quais tecnologias ajudarão a construir esse caminho?

Acredito que, com a Inteligência Artificial e o Big Data, a “Medicina do Amanhã” finalmente gira­rá em torno do paciente e, assim, o transformará em protagonista. Mas, para chegar lá, destaco três pré-requisitos importantes para essa mudança: a horizontalização da relação médico-paciente, onde as decisões são tomadas em conjunto, de maneira colaborativa, e não de “cima para baixo”; a remune­ração médica diferenciada, pois ainda vivemos em um momento em que o médico é pago por consulta/ procedimento, e não por sua performance. E, por fim, pelo uso de tecnologias disruptivas de amplo acesso, ou seja, produtos e serviços mais simples e baratos, que atendam a todas as pessoas.

Você coloca em xeque o tradicionalismo do setor e o paterna­lismo de médicos e outros profissionais de saúde. Os “médicos de hoje” estão preparados para essa “medicina do amanhã”?

Acredito que não, pois esse ‘paternalismo médico’ e o tradicionalismo da área de saúde não são de ontem. Este conceito de paternalismo inicia-se na antiga Ilha de Cós por volta do século V a.C., com Hipócrates. Ele acreditava que era dever do médico ocultar informações sobre as condições de saúde do paciente, caso julgasse necessário. Além disso, as fórmulas médicas (ou seja, os medicamentos da época) deveriam ser mantidas em segredo e compartilhadas apenas entre mé­dicos. Sendo assim, acredito que, se a medicina conseguir um dia alcançar esse patamar em que os pacientes, jamais reduzindo a atuação dos médicos, tornam-se protagonistas e possuem acesso direto – até onde for possível – sobre suas informações e questões de saúde, com certeza estaremos iniciando nossa trajetória na ‘Medicina do Amanhã’.

Você é um defensor da Medicina dos 5 Ps. Poderia falar mais sobre o conceito e sua importância?

Trata-se da medicina preditiva, preventiva, pro­ativa, personalizada e parceira. Preditiva, porque agora temos ferramentas como a genética e os vestíveis que auxiliam na detecção precoce de problemas. Preventiva, porque criar (e manter) a saúde, de fato, é uma medida mais inteligente do que tratar uma doença já diagnosticada, ainda mais munido de dados preditivos. Proativa, pois a medicina reativa é cara e desumana; se cada um de nós começar a ter mais consciência da própria saúde através do MAP (Movimento, Alimento, Pensamento), certamente teremos uma quali­dade de vida melhor. Personalizada, porque cada indivíduo é único. E, por fim, a medicina Parceira, pois acredito que o médico deve assumir uma posição de amigo e curador de dados para cada paciente, ou seja, sai de cena a figura de médico paternalista e entra a do médico parceiro, criando um relacionamento horizontalizado.

A lógica do sistema ainda está orientada à doença? De que maneira isso fica mais evidente?

Sim, isso é perceptível no currículo médico, onde inexistem enfoques em estilo de vida ou entrevista motivacional no neuro-marketing da Big Farma, nos anúncios de alimentos consi­derados “junkfood” e na forma de aconselhar os pacientes – todos estes alimentam a medi­cina reativa, em oposição ao 3º P: Medicina Proativa.

Neste aspecto, qual é o papel do pa­ciente na chamada medicina do futuro? De que forma podemos torná-lo um agente ativo de sua saúde?

O paciente precisa, a cada dia que passa, ter mais interesse pela sua própria saúde. Isso quer di­zer que ele pode (e deve) buscar mais informações sobre suas características (intolerâncias alimentares, por exemplo) e, des­sa forma, entender quais são as melhores opções de escolha para si mesmo, seja via alimentação ou hábitos de vida. É claro que cada um de nós não precisa sair correndo para fazer uma busca na internet sobre uma mínima dor que esteja sentindo, mas pensando, sim, a longo prazo, esse interesse poderá promover um envelhecimento adequado a cada um, por exemplo.

Esse boom da teleassistência/tele­medicina pode ajudar?

Acredito que sim, pois ainda vive­mos em uma sociedade em que a medicina não é acessível a todos. Então, a transformação digital e a inteligência artificial, por exemplo, passam a ser consideradas grandes aliadas neste processo.

Você aposta na Medicina Personalizada, baseada em Big Data e Inteligência Ar­tificial. Quais são os principais avanços e apostas nesta área?

Atualmente, já é possível sequenciar o próprio genoma, medir deze­nas de milhares de biomoléculas corporais e recorrer a dispositivos para monitorar o próprio organismo continuamente. Todas essas mensurações abrangentes têm o potencial de contar a quantas anda nossa própria saúde com uma precisão jamais vista. Além disso, a expectativa é de que, num futuro próximo, os dados individuais sejam utilizados para guiar o paciente em suas decisões de saúde, o que até então era feito apenas por meio de pesquisas e evidências extraídas de grandes populações.

Informação será a principal ferramenta para a medicina do futuro?

Com certeza. Eu acredito muito que a medicina daqui por diante será baseada na Infoterapia, ou seja, no fácil acesso a pesquisas, terapias, aplicativos e outras novidades do setor a um clique, forne­cendo ao paciente a oportunidade de debater com o profissional de saúde com maior conhecimento de causa. Além disso, também defendo a tecnologia como uma ferramenta aliada da medicina do futuro, e não me refiro diretamente a um laboratório ou sala de cirurgia robótica, mas à tecnologia que faz parte do dia a dia de qualquer paciente que tenha um dispositivo eletrônico em mãos.

Por outro lado, o excesso de informação pode ser, de alguma forma, prejudicial para médicos ou pacientes? Como lidar com essa overdose de informações?

Sim, pode ser muito prejudicial, pois estaremos falando da auto­medicação, muito questionada atualmente. As pessoas devem, sim, buscar informações sobre si mesmas, sobre sua própria saúde, mas de forma consciente e adequada, com fontes confiáveis. Aí entra a figura do médico do futuro: além de amigo, um curador de dados do próprio paciente e de informações sobre saúde.

Podemos dizer que médicos do futuro serão “gestores de informação”? Como isso se aplica na prática?

Com educação. No currículo médico daqui pra frente devem constar disciplinas sobre novas tecnologias e como utilizá-las. Sendo assim, o médico do futuro estará familiarizado com bios­sensores que controlam o nosso sono, a glicose no sangue, passos etc. – e assim poderá, além de conhecer melhor seu paciente, adotar condutas mais assertivas baseadas em dados produzidos pela própria pessoa.

A evolução tecnológica tem permitido descobrir novas formas de evitar, diagnosticar e tratar doenças. Neste aspec­to, quais são as ferramentas do futuro que já estão fazendo diferença no presente?

Primeiro, o fácil acesso ao sequenciamento do próprio genoma, seguido pela aferição de milhares de biomoléculas corporais (os “omics”) e, é claro, os dispositivos eletrônicos, como o bluetooth e os biossensores, capazes de monitorar a glicose, fre­quência cardíaca, sono, número de passos diários e gastos calóricos, por exemplo.

As healthtechs, biotechs e startups são agentes ativos neste processo de inovação?

Total, uma vez que as universidades não conseguem acompanhar os avanços de uma tecnologia que dobra a cada 18 meses (Lei de Moore).

Quais são as grandes apostas de pesquisadores e gurus do setor em termos de inovação na medicina?

A grande aposta é a nanotecnologia ou a minia­turização de procedimentos. Em outras palavras, em breve seremos capazes de destruir um tumor ou uma placa de colesterol através da infusão de nanomoléculas específicas para estes fins. Essa tecnologia é que faz com que a turma do vale do Silício, especialmente da Singu­larity, tenha a convicção de que a nossa expectativa de vida, para quem nascer a partir de 2100, será de 5 mil anos.

Para encerrar, como Pedro Sches­tatsky, médico e cidadão, lida com a tecnologia em sua vida privada e em sua prática clínica?

Todos os meus pacientes, antes da consulta, preenchem um ques­tionário de Inteligência Artificial que me ajuda a entendê-los na sua plenitude, pois vários gráficos são criados de acordo com tais respostas. A maioria usa biossen­sores, especialmente do número de passos por dia, o principal pa­râmetro de saúde. Vários tam­bém utilizam sensores de glicose, mesmo não sendo diabéticos. Isso possibilita identificar quais ali­mentos geralmente causam picos de glicose e, consequentemente, aumento de mortalidade e risco de demência. Também utilizo a análise genética das fezes (micro­bioma intestinal) para casos sele­cionados. E, claro, sempre confiro a presença dos meus pacientes nas mídias sociais, para entender sua realidade e aumentar minha conexão com ele.


Para mais informações sobre a obra, acesse: www.drpedroneuro.com.br

Medicina S/A

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