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Gestão em Saúde

Do lembrete no celular à inteligência artificial: o que funciona no pós-transplante

Modelos preditivos e monitoramento ampliam capacidade de gestão no cuidado contínuo ao transplantado

Por Claudia Araújo

O transplante de órgãos sólidos está entre as intervenções mais custo-efetivas da medicina moderna, capaz de salvar vidas e devolver qualidade de vida a pacientes com falência de órgãos vitais — somente em 2024, mais de 30 mil transplantes foram realizados no Brasil. No entanto, seu sucesso não se encerra na cirurgia: o transplante inaugura um cuidado permanente que depende da adesão rigorosa e contínua à terapia imunossupressora (IST) ao longo de toda a vida do paciente. Estima-se que entre 20% e 50% dos transplantados apresentem algum grau de não adesão, seja por esquecimento, uso em horários inadequados ou doses incorretas. 

Trata-se de um fenômeno frequente, associado a regimes terapêuticos complexos, efeitos colaterais, falhas de comunicação e barreiras de acesso, cujas consequências extrapolam o âmbito clínico e impactam diretamente a gestão dos serviços e as políticas públicas de saúde. No Brasil, onde o Sistema Único de Saúde financia cerca de 90% dos transplantes e fornece gratuitamente os imunossupressores, a não adesão representa não apenas sofrimento para o paciente, mas também desperdício de recursos públicos, perda de eficiência do sistema de saúde e aumento de custos evitáveis.

Pesquisadores do CES-COPPEAD/UFRJ conduziram, ao longo de 2025, um estudo inédito sobre como as tecnologias digitais — e, em especial, a inteligência artificial (IA) — podem apoiar a adesão dos pacientes transplantados à IST. Além de uma revisão de estudos nacionais e internacionais, foram entrevistadas 17 pessoas, entre pacientes transplantados, especialistas e médicos diretamente envolvidos com o cuidado em transplantes.

De acordo com os pesquisadores, aplicativos, lembretes automatizados, plataformas de telemonitoramento e sistemas de acompanhamento remoto têm potencial para organizar rotinas terapêuticas e reduzir erros de dose e horário. Esses avanços, embora relevantes, tendem a produzir efeitos modestos e temporários, que frequentemente se dissipam após alguns meses de uso. Resultados mais consistentes são observados quando a tecnologia é combinada com educação contínua, acompanhamento clínico estruturado, apoio psicológico e envolvimento de familiares ou cuidadores. A primeira lição é clara: a tecnologia funciona melhor quando integrada a processos de cuidado bem desenhados, e não quando tratada como solução autônoma.

A inteligência artificial amplia esse debate ao permitir uma nova forma de apoiar o cuidado. Segundo os achados do estudo, seu principal potencial no contexto do transplante não está em substituir decisões clínicas, mas em qualificá-las. Modelos preditivos podem ajudar a identificar pacientes com maior risco de não adesão, antecipar complicações, apoiar ajustes personalizados de acompanhamento e orientar o uso mais eficiente dos recursos assistenciais. Ao analisar grandes volumes de dados clínicos e comportamentais, a IA permite avançar de abordagens genéricas para estratégias mais personalizadas e antecipatórias. Do ponto de vista da gestão, isso significa migrar de um modelo predominantemente reativo para um modelo orientado por dados, com maior capacidade de prevenir eventos adversos e custos evitáveis.

Governança e capacitação

No entanto, sem governança, transparência, capacitação profissional e integração aos fluxos assistenciais, o uso da IA pode ampliar desigualdades, excluir populações com menor inclusão digital e gerar dependência de soluções pouco compreensíveis para usuários e gestores. A tecnologia — incluindo a IA — pode ser uma aliada poderosa na promoção da adesão ao tratamento em pacientes transplantados, mas não é uma solução mágica. Seus efeitos dependem de contexto, integração e governança. O ponto central é: assim como ocorre com outras tecnologias em saúde, a IA só gera valor quando inserida em um ecossistema preparado.

Claudia Araújo, do CES-COPPEAD/UFRJ

Para gestores e formuladores de políticas de saúde, o desafio central não é decidir se devem investir em tecnologia, mas como fazê-lo. Estratégias bem planejadas de incorporação tecnológica no contexto da adesão à IST devem contemplar, no nível do paciente, educação contínua, comunicação clara e tecnologias usáveis, alinhadas à realidade cotidiana; no nível das organizações, equipes multidisciplinares, protocolos de acompanhamento, integração entre níveis de atenção e uso inteligente dos dados gerados; e, no nível do sistema de saúde, políticas de inclusão digital, financiamento sustentável e diretrizes claras de longo prazo. Sem esse alinhamento, mesmo as tecnologias mais sofisticadas tendem a falhar em gerar impacto duradouro.

Apesar de todo o potencial das tecnologias digitais e da IA, os pacientes entrevistados ainda recorrem, no dia a dia, a recursos bastante simples, como alarmes no celular e lembretes na agenda para tomar a medicação na hora certa. Eles também relataram a carência de soluções oferecidas pelo poder público e pelos hospitais transplantadores que facilitem o acesso aos serviços de saúde após o transplante. Para suprir essa lacuna, muitos criam suas próprias redes de apoio por meio de grupos de WhatsApp, perfis em redes sociais e até conversas com aplicativos de IA. Esses canais informais são utilizados para apoio emocional entre pares, esclarecimento de dúvidas e troca de experiências sobre o cotidiano pós-transplante. Em um ambiente marcado pela disseminação de fake news, essa ausência de canais institucionais abre espaço para informações nem sempre adequadas ao autocuidado. A tecnologia já está presente na palma da mão do paciente — cabe ao poder público e às organizações de saúde saber utilizá-la em favor do cuidado.

O futuro da adesão no pós-transplante será definido menos pelo brilho das ferramentas digitais e da IA e mais pela capacidade dos sistemas de saúde de redesenhar processos, fortalecer relações e assumir a adesão como um compromisso coletivo — e não como uma responsabilidade exclusiva do paciente, isolado em sua casa. A grande lição que fica é: a inovação que realmente importa é aquela que transforma o cuidado, e não apenas o digitaliza.

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*Claudia Araújo é professora e coordenadora acadêmica do Centro de Estudos em Gestão de Serviços de Saúde (CES-COPPEAD/UFRJ).

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