A comunidade médica sabia, há muito tempo, que pessoas diferentes respondiam de maneira diferente aos seus tratamentos. Médicos mais habilidosos e atentos, tentavam adaptar tanto o diagnóstico quanto a terapia para cada paciente. O surgimento dos exames laboratoriais no final do século XIX permitiu guiar ainda mais o diagnóstico e o tratamento, tornando as terapias propostas mais padronizados e objetivas. Entretanto, as respostas dos pacientes nem sempre reforçavam as impressões iniciais e reações idiossincráticas e paradoxais acompanharam a introdução de novos medicamentos, obrigando médicos a lidar com o mistério da variabilidade dos pacientes.
Como explicar que, diante de um diagnóstico objetivo, e recebendo a mesma dose de uma mesma medicação, duas pessoas apresentem reações distintas? Como prever as reações a fim de otimizar e garantir a segurança e a eficácia dos medicamentos?
Desde quando médicos e pesquisadores começaram a se concentrar no enigma da variação individual na resposta aos medicamentos e terapias, no final da década de 1940, eles reconheceram três modos básicos de explicação: hereditariedade, ambiente e comportamento. E durante as décadas seguintes, a pesquisa sobre os determinantes genéticos e ambientais da resposta aos tratamentos desenvolveu-se em paralelo, muitas vezes em sinergia.
Medicina personalizada
Dessa necessidade, nasceu a medicina personalizada e a medicina de precisão. Embora sejam frequentemente descritas como sinônimos, a primeira refere-se à adaptação do cuidado ao indivíduo específico, considerando suas preferências, valores, contexto social, comportamento, além de dados biológicos, e a outra trata de estratificar os pacientes em grupos, com base em características como genética, biomarcadores, ambiente e estilo de vida, para selecionar a melhor prevenção ou tratamento para cada grupo.
A medicina de precisão também foi descrita mais recentemente como um movimento na área da saúde que envolve o desenvolvimento de “uma nova taxonomia de doenças humanas baseada em biologia molecular”, revelando sua abordagem inovadora, fundamentada em dados de biomedicina, que leva em consideração as diferenças individuais nos genes, ambientes e estilos de vida das pessoas para desenvolver tratamentos e medidas preventivas para doenças.
Em comum, essas abordagens prometem alcançar uma compreensão mais refinada e holística da complexidade individual das doenças e desenvolver terapias inovadoras que sejam precisamente adaptadas a grupos de pacientes definidos ou a indivíduos específicos. Para atingir esse objetivo, ambas dependem criticamente da análise e da integração de formas complexas de evidência, utilizando genômica, metabolômica e outras tecnologias ômicas, bem como conjuntos de dados de saúde eletrônica e infraestrutura de tecnologias de informação sofisticadas. Em oncologia, por exemplo, o maior e pioneiro subcampo da medicina de precisão, os pacientes agora podem ser estratificados e tratados em subgrupos com base em testes genômicos e no perfil molecular de tumores.

Em outras áreas da Medicina, pesquisadores e clínicos estão investigando de que maneiras os tratamentos individualizados – por exemplo, para doenças crônicas – podem e devem levar em consideração informações sobre a microbiota e estilo de vida de subgrupos de pacientes. Nesses e em outros casos, espera-se que a medicina de precisão leve a tratamentos mais direcionados e eficazes. A principal justificativa por trás dessa esperança reside na suposição de que as ferramentas da medicina de precisão, especialmente com a utilização de testes genéticos, levarão a uma compreensão mais exata, molecular e estratificada das doenças e, em um segundo momento, aumentarão a certeza em relação ao desenvolvimento direcionado e à escolha de tratamentos para grupos específicos de pacientes, substituindo as classificações generalizadas de doenças.
Os avanços dessas práticas se manifestam em benefícios tangíveis, como a detecção precoce de doenças e o desenvolvimento de tratamentos personalizados, que estão se tornando mais comuns na área da saúde. O poder da medicina de precisão para personalizar o atendimento é viabilizado por diversas tecnologias de coleta e análise de dados. Em particular, a convergência da genotipagem de alto rendimento e a adoção registros eletrônicos globais, bem como de biobancos, oferecem aos cientistas uma oportunidade sem precedentes de derivar novos fenótipos a partir de dados clínicos e de biomarcadores do mundo real.
Nova era da Medicina
Essa nova era da Medicina, integrada aos cuidados de saúde, tem o potencial de gerar diagnósticos mais precisos, prever o risco de doenças antes do surgimento de sintomas e desenvolver planos de tratamento personalizados que maximizem a segurança e a eficiência.
Contudo, embora a medicina de precisão seja vista por muitos como um dos avanços mais promissores no campo da Medicina, ela também levantou questões críticas em vários níveis. Estas incluem questões econômicas e políticas, bem como questões éticas, legais e sociais que precisam ser consideradas. Por exemplo, economistas analisam questões relacionadas à relação custo-benefício de terapias baseadas em testagem genética para subpopulações; cientistas sociais examinam o cenário político no qual os projetos de medicina de precisão estão inseridos; e bioeticistas, advogados de biotecnologia e cientistas sociais investigam os aspectos éticos, legais e sociais da medicina de precisão. Este último inclui trabalhos sobre achados incidentais em testes genômicos, questões de privacidade, regulamentação de dados e discriminação na medicina de precisão, entre outros.
Além dessas questões éticas e institucionais, preocupações têm sido levantadas recentemente sobre aspectos metodológicos, exemplificadas nas observações descritas, em 2018, por Kimmelman e Tannock como o “paradoxo da medicina de precisão”. Surpreendentemente, a incerteza parece ser uma característica fundamental da medicina de precisão na prática, em particular a incerteza quanto à sua base de evidências e em relação à tomada de decisões clínicas. Quanto mais específica e personalizada é a terapia, menor tende a ser a evidência clínica robusta que sustenta seu benefício. Posteriormente, outros pesquisadores descreveram aspectos da fragilidade na medicina de precisão, como a dúvida em relação à escolha dos testes e à interpretação de conjuntos de dados complexos, suas implicações terapêuticas, limiares de evidência pouco claros e algoritmos de aprendizado opacos (“caixas-pretas de decisão”) para prever resultados terapêuticos, status causal incerto dos marcadores genéticos e a falta de confiabilidade dos testes genômicos. Não se trata de rejeitar essa nova abordagem, mas de alertar a comunidade científica de que precisão biológica não é sinônimo de beneficio clínico e a personalização extrema pode enfraquecer o nível de evidência, sendo necessário manter o rigor metodológico.
Para além dessas questões, a medicina de precisão oferece aos profissionais de saúde a capacidade de descobrir e apresentar informações que validam ou alteram a trajetória de uma decisão médica. Passa-se de uma decisão baseada em evidências para o paciente médio a uma decisão baseada nas características únicas do indivíduo. E isso certamente facilita a prestação de cuidados personalizados para cada paciente por parte do médico e oferece melhores oportunidades de resultados.
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Referências
Mapping Uncertainty in Precision Medicine: A Systematic Scoping Review. J Eval Clin Pract. 2023; 29:554-564.
A Decade of Genome Medicine: Toward Precision Medicine. Begum Genome Medicine. 2019; 11:13.
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